A matemática e a loiça

Educação e Ambiente MARTA OLIVEIRA

Mestre em Ambiente e Comunicação

Muitos de nós, diariamente, fazemos gestos automáticos. Há gestos e condições que damos por adquiridos. Por exemplo, abrir uma torneira, em nossa casa, e ter logo ali um jato de água “pura e limpa”; ou seja, água potável, sem termos que sair de casa.

Poderíamos por exemplo, ter que “ir à fonte” ou “ao poço”. Ou “ao rio”. Ou… à cisterna; melhor dizendo, ao camião cisterna – comprar água. Mas não, tal não é necessário.

Podemos até lavar os dentes com alguma pressa e a água vai correndo porque, com a torneira aberta “parece que é mais rápido”. Ou, lavar a loiça à mão sem fechar nunca a torneira do lava loiça. Ou achar que nem é muito importante encher a máquina da loiça até à sua capacidade total, quando a usamos. E, se calhar, até nunca pensámos a sério em procurar informação sobre a relação qualidade/ preço de uma nova máquina da loiça. Ou da roupa. Perceber se, quando for a altura de trocar por exemplo de máquina da loiça, é possível poupar água e eletricidade quando colocarmos a máquina a lavar os copos, pratos, talheres e afins.

E se, em metade dos lares do país, conseguíssemos fazer essa troca? Máquinas antigas serem trocadas por máquinas mais recentes, mais eficientes. Que lavam bem e gastam menos? Menos recursos do planeta e, também, menos dinheiro!

Se, a curto/ médio prazo, mesmo considerando um cenário de austeridade (ou, até, devido a este), fosse possível dispor de condições para lavar a loiça e gastar cerca de metade da água necessária, nesses lares? A matemática não é difícil: se em 5,8 milhões do total de lares (“alojamentos residenciais”, segundo os Censos do Instituto Nacional de Estatística) considerarmos que 60% têm (e usam) máquina da loiça; se a máquina trabalhar, em média, três vezes por semana e se gastar 7 litros de água em cada lavagem (em vez dos 12 litros da máquina antiga)… conseguimos uma poupança de 1008 litros em cada casa, por ano; e, no total desses 60% das casas do nosso país, que optassem por essa substituição, quanto seria a poupança? A resposta é: 3 507 840 000 litros. Ou seja, aproximadamente 3508 milhões de litros por ano!

É algo relativamente recente, no nosso país, a cobertura em cerca de 100% do território nacional no que respeita ao abastecimento de água e ao saneamento básico (em linguagem corrente, os “esgotos”). Em praticamente todas as casas dispomos de água tratada e de uma ligação à rede de esgotos. Tanto a água potável como os esgotos percorrem um longo caminho. Desde a sua origem até ao seu destino final. Será que às vezes pensamos nisto?

Será que olhamos para a nossa capacidade de escolha, todos os dias, em coisas simples como lavar os dentes ou… os pratos?

1856 piscinas

Uma poupança de 3508 milhões de litros de água, ou seja, 3508 mil m3, equivale a algo como a quantidade de água necessária para encher 1856 piscinas olímpicas.