A Mensagem de Fátima é uma exortação à coerência de vida cristã

A Ir. Ângela de Fátima Coelho sucedeu ao P.e Luís Kondor, recentemente falecido, como vice-postuladora da causa da Canonização de Francisco e Jacinta Marto. É religiosa da Aliança de Santa Maria, residindo em Fátima, e médica no Hospital de Leiria. Também lecciona no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA).

CORREIO DO VOUGA – Bento XVI vai ser peregrino em Fátima, em Maio de 2010. Espera que venha deste acontecimento um impulso à causa da canonização dos dois Pastorinhos?

IR. ÂNGELA DE FÁTIMA COELHO – A visita do Santo Padre vai ser um momento de graça para a Igreja em Portugal. Ao termos aqui em Fátima a sua presença, o olhar dos fiéis cristãos e da humanidade voltar-se-á para este lugar onde os Pastorinhos, por desígnio divino, foram protagonistas e receptores da Mensagem de Nossa Senhora. É muito possível que as pessoas reavivem a sua devoção para com eles, ou muitos comecem a conhecê-los a partir desta visita, e, consequentemente, isto seja motivo de impulso para a sua causa.

Depois da beatificação em 2000, falta um milagre para que o processo avance. Há algum processo em estudo?

Neste momento, não está em estudo nenhum processo relacionado com a cura de doenças. Recebemos, durante este ano, por escrito, a comunicação de cerca de 80 graças. Recebemos ainda por telefone ou mesmo pessoalmente a comunicação de graças que as pessoas acreditam terem recebido de Deus, por intercessão dos Pastorinhos de Fátima. Há graças de cariz espiritual (conversão de algumas pessoas, reconciliação de membros de famílias) e outras mais materiais, desde curas de algumas doenças, auxílio na procura de emprego, etc.

Que características tem de ter o milagre para poder ser investigado e servir à causa?

Só pode ser considerado milagre a cura permanente de uma doença para a qual a medicina actual não tenha explicação. E que a cura tenha sido obtida num contexto de fé e de oração por intercessão do Francisco e da Jacinta.

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á quem pense que os santos deviam ser canonizados pela sua vida cristã virtuosa, sem necessidade de um milagre, que, para a mentalidade actual parece algo estranho. Já lhe fizeram esta observação? Como responde?

Do ponto de vista teológico, são aceitáveis diferentes critérios para a Igreja incluir alguém entre o número dos santos ou beatos. Cabe à autoridade eclesial determinar qual lhe parece ser o mais oportuno em cada época histórica. No passado, já se usaram outros processos. No futuro, se assim o entender, a Igreja poderá optar por outra forma de atestar a relevância de um determinado modelo de santidade. Uma coisa são os indicadores para reconhecer a santidade de um baptizado, outra coisa são as manifestações extraordinárias relacionadas com a importância que a intercessão desse santo tem para os cristãos. Não me parece relevante, para a missão que me foi confiada, pôr em questão os actuais critérios.

O facto de ser médica teve alguma influência para a sua nomeação como vice-postuladora?

Não terá sido tanto o facto de eu ser médica, como sobretudo um conjunto de diversos factores que convergiram para que fosse nomeada.

O facto de já colaborar com o P.e Kondor desde 2001 fez com que eu fosse conhecendo bem os processos. Por outro lado, o facto de pertencer a uma comunidade religiosa cujo carisma é evangelizar através do Coração Imaculado de Maria bem como o intenso trabalho de divulgação da Mensagem de Fátima levaram-me a um estudo aprofundado de tudo o que se relaciona com a Fátima e, consequentemente, a um estudo sobre os Pastorinhos.

Certamente que a formação que fiz ao longo da vida, tanto na medicina como nas ciências religiosas, e os contactos que resultam do trabalho de divulgação que fui exercendo, também são elementos que me podem dar alguma preparação para estas funções.

Todas estas causas estão interligadas… mas creio, sobretudo, que ao receber da Igreja esta missão, o faço com a consciência de estar a fazer a vontade de Deus.

Está a orientar um curso sobre a Mensagem de Fátima no Centro de Formação e Cultura, em Leiria.Tem tido bom acolhimento este curso?

Sim, até mais do que eu esperava! Estão a participar mais de 40 pessoas, sendo a sua maioria leigos. E em cada aula – já vamos na 4.ª (o curso é de 15 aulas, num total de 30 horas) – tem vindo mais alguém de novo!

É importante que os cristãos conheçam a Mensagem de Fátima? Porquê?

A Mensagem de Fátima é uma exortação de Nossa Senhora à vivência do Evangelho, à coerência de vida cristã, a assumirmos o nosso compromisso como baptizados, através duma vida sacramental, duma vida na graça de Deus. Os elementos desta Mensagem têm como único fim aproximarmo-nos mais a Jesus Cristo. Enquanto existirem pessoas a necessitarem de conversão, enquanto houver gente a desejar ardentemente a santidade, enquanto houver guerra no mundo, a mensagem de Fátima terá uma forte relevância e actualidade.

Bento XVI fala de Fátima como “escola de fé com a Virgem Maria como Mestra”. O que se aprende com Fátima?

Para entendermos o que se aprende na “escola de Fátima”, basta olhar para a vida dos Pastorinhos, aqueles que, nas palavras do P.e Luís Kondor, foram “um dos mais belos frutos da mensagem de Fátima”. Eles aprenderam a viver e a pôr em prática as virtudes teologais da fé, esperança e caridade, mesmo no meio de provações, esquecendo-se de si próprios para o bem dos outros.

Hoje, fala-se muito de “qualidade de vida”… e nesta “escola” aprende-se qual o sentido pleno da nossa vida, aprende-se a arte de viver: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Deus nos amou. Porque Fátima não é outra coisa senão uma experiência viva do amor de Deus, do Evangelho, através do Coração terno e materno de Maria.

Associados a Fátima estão também os sacrifícios pessoais que dão a transparecer uma imagem de Deus que por vezes tem pouco de cristão. Um Deus que se contenta com os sacrifícios corporais, que de certo modo negoceia o bem-estar as pessoas… Para além de muitas pessoas gostarem de ir a Fátima, mas pouco ligarem aos sacramentos cristãos… Podemos dizer que algumas das práticas associadas a Fátima precisam de ser evangelizadas?

IR. ÂNGELA DE FÁTIMA COELHO – O problema não está nas práticas em si mesmas, mas sim no espírito e intenção com que as realizamos e na coerência da nossa vida.

Certamente, Deus não é um negociante, o que Deus é, no-lo diz São João na sua Carta: Deus é Amor. E é este Deus que transparece na Mensagem de Fátima, um Deus que ama os Pastorinhos – e a humanidade – que por eles quer ser amado, e que se preocupa com a nossa vida e a nossa história!

Quanto aos sacrifícios, em Fátima eles representam uma expressão de amor, de um amor maior, que se esquece de si mesmo para pensar nos outros, sobretudo na salvação eterna dos nossos irmãos e irmãs.

E quando oferecemos sacrifícios pessoais a Deus, por amor, sem esperar nada em troca, como o fizeram os pequenos Francisco e Jacinta, a nossa relação com Ele continua a ser autêntica e profunda.

Além disso, temos de levar muito a sério as palavras do Evangelho quando nos alerta a não julgarmos aos outros. O que “transparece” aos nossos olhos, não é critério de discernimento no caso dos sacrifícios pessoais dos fiéis. Deus é quem conhece os corações dos homens e perscruta as suas intenções.

Contudo continua a ser importante formar o povo de Deus para o conteúdo fundamental do Evangelho e da vivência cristã a que a Mensagem de Fátima apela.

Como viveu a morte do P.e Kondor?

O Sr. P.e Kondor faleceu no seu quarto e pude acompanhá-lo naquele momento.

Até ao fim manteve-se sereno, nunca se queixava, oferecia tudo em reparação aos Corações de Jesus e de Maria e pela conversão dos pecadores, tal como os Pastorinhos faziam.

Como conheceu o P.e Kondor?

Conheci o P.e Kondor em 2000/2001 numa altura em que o ajudei no Hospital de Leiria com alguém seu conhecido e que necessitou de ir à Urgência. Ficámos amigos e comecei a colaborar com ele na leitura de algumas cartas com comunicação de graças, fazendo uma triagem, tentando perceber se havia alguma que poderia ser um milagre.

Acompanhei-o em algumas das suas viagens a Roma e assim fui contactando com os Postuladores e com a Causa dos Pastorinhos.

Que memórias guarda do primeiro vice-postulador da Causa dos Pastorinhos?

Guardo dele a memória de um homem profundamente espiritual, com uma vida de oração intensa e com um grande sentido de missão que, no seu caso, era o de trabalhar pela canonização do Francisco e da Jacinta e de difundir a Mensagem de Fátima.

Amava profundamente Nossa Senhora, e foi desenvolvendo o sentido de reparação considerando-a um dos elementos essenciais da Mensagem de Fátima. Estava a preparar um livro sobre esse tema, que procuraremos publicar ainda que postumamente.

Também nunca posso esquecer, nem a Igreja em Portugal, assim o creio, a sua imensa generosidade! Tinha diversos contactos, na Alemanha e um pouco por todo o mundo, e todos o ajudavam para que ele pudesse ajudar outros… Nunca poderemos saber quanta gente, institutos, dioceses auxiliou…

Pessoalmente, sobretudo nos últimos meses, recomendava-me que “cuidasse dos Pastorinhos”.

Ficou feliz com a minha nomeação como sua adjunta, uma vez que já se sentia muito cansado e doente e deu-me a sua bênção para este trabalho. Agora conto com a sua intercessão, junto dos Pastorinhos e de Deus.

Entrevista conduzida por

Jorge Pires Ferreira