Eu estive lá Testemunho de Karina Oliveira, jovem de Ílhavo, que trabalhou um ano como enfermeira em Timor.
Já tentei recomeçar este texto, vezes sem conta. Acho sempre difícil falar de Timor, ou melhor, da experiência de Timor em poucas palavras. Mas antes de falar de mim, gostava de fazer um tributo a um povo que me ensinou o verdadeiro significado da palavra “Resistência”, isto é, os valores – o porquê e o que nos faz viver.
Em Timor, ouvi histórias dos guerrilheiros na primeira pessoa; trilhei as montanhas que outrora foram esconderijos, para quem fugia da morte; rezei junto ao túmulo dos que morreram pela liberdade; estive no cemitério “Santa Cruz”, junto ao muro onde os soldados indonésios começaram “o cruzar fogo” contra os jovens que estavam em oração; vivi os campos de refúgios por causa dos conflitos políticos… As minhas palavras parecem-me sempre vagas, e a minha experiência sempre curta, junto ao que vivi e com quem vivi.
Sou a Karina, tenho 24 anos e sou enfermeira. Choro com uma história feliz e adoro chocolate. Estive em Timor-leste um ano, em Laclubar, numa zona montanhosa, a 4h de distância da capital. Parti em missão com os Irmãos de São João de Deus, pelos Leigos Missionários Hospitaleiros. Não foi de um dia para outro que surgiu este “ser missionária!”. Foi um “não sei quê”, que “começou não sei onde”, mas que foi crescendo, vivido e posto em prática. Fiz formação pela Juventude Hospitaleira. Fiz campos e encontros missionários, fins-de-semana de voluntariado, encontros pela Fundação de Evangelização e Culturas, aulas de tétum, entre outros. Fiz também formação pelo SDAM, pela indecisão de fazer uma experiência curta ou longa. Não sei bem o que me fez escolher, mas a paz de espírito que senti, quando fiz a minha escolha, mostrou-me que o caminho era por Timor.
Antes de partir, lembro-me de ter escrito: “Quando se acredita em Cristo, tudo o que podemos fazer parece pouco aos seus olhos”. Assim, parti em Missão para ser testemunha deste Amor.
A família foi uma base de suporte importante para estar em missão. É difícil para eles, é como “esticar o cordão umbilical” a uma distância de 15 mil km. Mas aceitaram a minha decisão.
Não parti sozinha, parti com a Xana Abreu, auxiliar de educação, e mais tarde juntou-se a nós a Manuela Fonseca, psicóloga. Vivendo em comunidade, tornamo-nos conscientes de que a diversidade é uma dificuldade, mas também a grande riqueza. Existem valores como o respeito, a sinceridade e a compreensão, que são pilares essenciais para a vida em comunidade.
Em Timor, fomos acolhidas pelos irmãos José António e Vítor, irmãos de São João de Deus, que nos mostraram Timor como um tesouro embrulhado em papel de jornal. Só depois de o desembrulhar é que o podemos apreciar. São dois irmãos que nos ensinaram, sempre com um sorriso, que a missão não é apenas um partir, mas uma forma de estar na vida. A comunidade de missionários em Timor era composta por mim e as minhas duas manas (a Xana e a Manuela), os dois irmãos, e três irmãs brasileiras (a Ana, a Lúcia, e a Vera), que estavam num projecto de apoio à igreja de Timor.
Em Laclubar, trabalhei como enfermeira no Centro de Saúde, em conjunto com os enfermeiros timorenses. Nunca assumindo uma área de responsabilidade, porque a experiência é muito curta, apoiei as diversas áreas de saúde, mais especificamente, saúde mental, saúde infantil, tratamentos, visitas domiciliárias, etc., através de formação profissional, prestação de cuidados, desenvolvimento do processo de enfermagem, etc. Também apoiávamos as actividades pastorais da paróquia de Laclubar, visitando as comunidades mais distantes, para fazer celebrações da palavra e acompanhamento aos doentes.
Foi uma experiência gratificante, e recordar é sempre fazer saltar em mim um sorriso.
Regressei há quase três meses, sinto que há muito por fazer, ainda…
Karina Oliveira
