A montanha e os pés

Educação e Ambiente MARTA OLIVEIRA

Mestre em Ambiente e Comunicação

Li recentemente uma frase de Nelson Mandela que me fez pensar. Bastante. E que adquire um sentido especial nesta altura pós-conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável, Rio +20 .

A frase de Mandela diz: “Depois de termos conseguido subir a uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir”.

Com que olhos olhamos os nossos desafios diários? Mensais? Anuais?

De que forma encaramos aquilo que nos parece ter sentido, mas que nos exige esforço, comprometimento, trabalho árduo?

E será que encaramos o “Ambiente” como algo que nos é externo, exterior?

Pautamos as nossas ações e atitudes por frases do género “vamos ajudar o ambiente!”?

Ou conseguimos ir mais além? Conseguimos não olhar para esse “tal” de “ambiente” como algo externo, mas como algo bem amplo. Mais além. Algo que nos inclui. Algo de que fazemos parte. Algo do qual não somos excluídos, mas parte constituinte juntamente com outras que se interligam como o ar, a terra, os oceanos, os ecossistemas, plantas, insetos, animais,…

Já desde há algum tempo que me parece que quando alguém se exprime usando frases/expressões como “proteger “o” ambiente” tal atitude tende – com grande probabilidade – a refletir uma noção de ambiente como algo extrínseco a si próprio. A ser um sinal de pouca participação nesse algo mais amplo. Sinal ou sinónimo da não-consciencialização de fazer parte de um todo.

Outra citação de Mandela é: “Tudo parece impossível até que seja feito”.

Esta citação faz-me recordar uma outra, de Júlio Verne: “Não há nada impossível; há só vontades mais ou menos enérgicas”.

E, curiosamente (ou não), a questão da simplicidade e das vontades enérgicas transporta-me para a experiência de uma amiga que há uns cinco, seis anos, acompanhando o marido numa viagem de trabalho aos Estados Unidos – viagem que durou alguns meses e que teve como destino uma cidade norte-americana próxima do México – se viu confrontada com hábitos diferentes ao nível da vida doméstica. Em particular: estender os panos da cozinha ao sol; ou a roupa lavada. Para secarem. Naquela zona, abundante em sol, a vizinhança não tinha o hábito de estender a roupa ao ar livre; mas sim, de usar a máquina de secar. Pior que isso: considerava quase uma ofensa que uma recém-chegada usasse um estendal para secar roupa no exterior; e, acrescento, a época era a de Verão…

Parece-me algo bastante simples: aproveitar o sol, e/ou o vento, para secar roupa. Será?

No nosso dia-a-dia, quantos de nós optamos por usar o sol e quantos de nós optamos por usar a máquina de secar roupa?

Hum, já agora, vale a pena relembrar a questão já aqui abordada anteriormente*, da produção de eletricidade a partir do carvão e outros combustívies fósseis, nas nossas centrais termoelétricas, a produção de CO2 e a informação de que dispomos na fatura da “conta da luz”…

*“Os barcos e o interruptor”, edição CV de 2 de maio de 2012 (link ttp://www.portal.ecclesia.pt/pub/14/noticia.asp?jornalid=14&noticiaid=83714).