A morte de um homem bom

Vivi, nas últimas semanas, a morte de um homem bom.

Um homem cuja vida sempre fez jus à determinação daquele homónimo general cartaginês para quem nem as montanhas mais altas da Península foram obstáculo a que atravessasse, de elefante, caminhos tortuosos em direcção à capital do grande império romano. Quando a decisão estava tomada, as dificuldades não eram determinantes.

Mas a morte acercou-se e, em poucos dias, levou de vencida uma luta, que ainda se pensou poder ser ganha a partir da margem de cá da vida.

Não foi assim; e a interrogação assomou à janela da inquietação: Porquê? Onde vislumbrar-se a vontade de Deus na morte de um homem bom?

Se é certo o dizer do prosador para quem, ao ouvirmos o dobrar dos sinos, não devemos perguntar-nos sobre quem morreu, pois dobram por nós, esta era uma morte em que cada um se reencontrava com os seus últimos limites.

A dúvida ganhava contornos de inquietação unida a todos os que, na amnésia da história, se perderam para a memória colectiva, apesar da sua inocência. E diante deles, a dúvida: como ler, na fé, a relação entre Deus bom e a morte daquele que nada faz crer ter merecido a morte?

Esta é a dúvida mais crucial de toda a história da humanidade, a dúvida da teodiceia, esse lugar da teologia em que mal e bem se digladiam face à inquietação mais pungente, sob uma espada que continua a dividir crentes e não crentes, ora recusando que Deus possa estar na origem do mal, ora supondo tal fonte e crendo num deus cruel, ora recusando que Deus – porque não poderia supor-se a sua existência indiferente ao mal – possa sequer existir, pois, ‘se o mal existe?!’…

Tais perguntas se acercarão, seguramente, quando a vida não faz supor a morte. E onde está Deus, quando morre um seu inocente?

A resposta que procuramos na fé cristã tem, muitas vezes, enfermado de um erro que temos de consciencializar em momentos em que a emoção não turva o pensamento, para que, nessoutras horas, o pensamento ilumine a emoção. A resposta cristã não é a de uma corrente filosófica que explicasse a morte e lhe atribuísse uma natureza voluntária: a morte como vontade de Deus, assim como o sofrimento, a dor, a catástrofe. Esta tem sido, com extrema frequência, a linha de interpretação que se tem seguido, devedora de um princípio presente em certa fase da teologia do Antigo Testamento, que assentava na consideração de que o bem e o mal eram retribuídos, ao longo desta vida, de forma directa e conexa ao agir de um indivíduo ou dos seus antecedentes. Uma tal concepção é frontalmente contestada, quer por Job, quer por João, na célebre passagem do cego de nascença que se lava na piscina de Siloé (Jo 9,1-12).

Então, como interpretar a morte do inocente?

Uma tal inquietação desafia a que a fé se centre, efectivamente, em Jesus Cristo.

Ele é o Inocente por definição. A Sua não é uma morte justa. Muito menos é uma morte desejada, como bem denunciam as suas manifestações de interrogação, na hora últi-ma. Mas a abertura que se sucede às interrogações permite iniciar-nos no caminho que nos leva pela mão rumo ao sentido a conferir à morte.

Esta, como os seus eternos companheiros – sofrimento, dor, catás-trofe… -, não pode ter origem em Deus. Bem o demonstra, aliás, a concepção judaico-cristã do mundo como criado, afirmação por excelência da diferença entre criatura e Criador, entre o finito e o Infinito, entre o mortal e o Imortal. Esta deverá ser atribuída à condição limitada, criatural, não divina do mundo.

Mas, e Deus onde cabe, em tal abordagem?

Deus escolhe criar e continuar a criar. Mesmo sabendo que cria seres limitados, mas a limitação é preferível a nada existir.

Por outro lado, Deus revela, em Jesus Cristo, que a morte do Inocente por excelência não se anula em si. Deus tira, da morte, vida. E esta é a iniciativa que deve inaugurar um novo dinamismo nos crentes. Tal como Deus tira, da morte, vida, assim a cada um caberá, não justificar o mal, a morte, a catástrofe, mas tudo fazer para que da morte ressuscite a vida. O sofrimento, neste sentido, não será, nunca, desejado, procurado. Seria atentatório de uma genuína visão criadora de Deus. Pelo contrário, face à impossibilidade criatural de se viver sem finitude, sem limite, há que retirar do limite o ilimitado, da destruição a renvação.

Esta é uma dinâmica que deverá percorrer todos os âmbitos da existência humana, pessoal e colectiva. A dinâmica inaugurada pela fé cristã não será a da auto-satisfação com o sofrimento, a morte, a dor, mas, sim a desafiadora atitude, activa e também intelectual, de procurar retirar de cada morte vida. E perceber que essa é a dinâmica de Deus: retirar, da morte, a vida, isto é, ressuscitar.

E porque neste mundo o Reino já se manifesta, ainda que não de forma plena, esse é o dever de todos os que descobriram, um dia, que assim se revela o Deus Criador: como aquele que não abandona o homem, as suas criaturas, pois a morte já não tem a derradeira palavra.

Do nada, Deus retira o ser. Da morte retira a vida…

Obrigado, senhor Aníbal!