Não sendo possível publicar na totalidade os textos das homilias que D. António Francisco proferiu na Sé de Aveiro, no Tríduo Pascal, o Correio do Vouga seleccionou alguns excertos. Os textos encontram-se na íntegra em www.diocese-aveiro.pt.
Na Missa Crismal, na manhã de 1 de Abril, participaram todos os padres e diáconos da Diocese de Aveiro. “Um testemunho muito digno e belo do nosso clero” – disse o Bispo de Aveiro a este jornal.
De realçar que a primeira celebração ficou marcada pela oferta de uma estola a cada padre. “Quis que fosse um gesto meu, mas a generosidade da mãe do Padre Cali [José Carlos da Silva, padre de Aveiro na Fraternidade de Sacerdotes Operários do Coração de Jesus] e de senhoras de Aveiro, que tudo fizeram de graça, oferecendo o pano e bordando à mão, assim como oferecendo-me uma casula e dalmáticas e uma mitra igualmente bordada, foi um gesto que me enterneceu”, revelou o Bispo de Aveiro. “Valeu a ideia, mas o mérito não é meu, porque nem sequer me deixaram pagar nem o pano nem o trabalho. São gestos de bondade só possíveis nestas gentes de Aveiro”, acrescentou.
Na celebração, D. António Francisco recordou os padres que partiram ao longo do último ano (Joaquim Redondo, João Mónica, Valdemar Costa, Albano Pimentel), lembrou que o P.e Vitor Espadilha está em jubileu, por completar no dia 15 de Agosto 25 anos de ordenação, e notou que o P.e João Manuel Marques Gonçalves participou pela primeira vez na renovação das promessas sacerdotais (foi ordenado no dia 12 de Julho de 2009).
Na Vigília de Páscoa, o Bispo de Aveiro baptizou as jovens Rita e Vanessa. “Saúdo-vos com particular afecto em nome de toda a Igreja que vos acolhe com alegria. (…) A Igreja de Aveiro é a vossa Igreja. Aqui deveis crescer na fé, na fidelidade e no compromisso cristão. A nossa fé é também a vossa fé. Sois nossas irmãs em Cristo e membros desta comunidade diocesana”, disse-lhes.
J.P.F.
“Queremos viver a fidelidade a Deus com alegria e entusiasmo”
QUINTA-FEIRA SANTA
MISSA CRISMAL
(…) O nosso olhar só se pode voltar para Cristo, porque primeiro o olhar de Deus se voltou para nós.
Contemplando a vida de Jesus, vemos como Jesus convida a «trabalhar com Ele», como escolhe e chama pessoalmente a estar e a viver com Ele.
Assim, aqueles que se sentem seduzidos por este Senhor que perdoa, que cura, que restaura a dignidade, que convoca e que envia, optarão por viver e trabalhar com Ele.
O ministério apostólico a que Deus nos chama no sacerdócio é um serviço de amor, como já o afirmava S. Leão Magno. Serviço de amor a Cristo e aos irmãos. Para isso é necessária a comunhão com o Mestre. Há que ser discípulos para poder ser apóstolos. Não se é sacerdote sem viver com Cristo, como sarmentos que levam consigo a vigorosa força da videira a que estão indelevelmente unidos.
Desejamos ser um presbitério que dá a Deus o primeiro lugar na vida e na missão, procurando a via espiritual e a familiaridade com Deus como fonte de alegria, de fortaleza e de inspiração para viver a paixão pelo serviço do mundo.
Queremos viver a fidelidade a Deus com alegria e entusiasmo. A renovação das promessas e dos compromissos sacerdotais têm hoje esse sentido diante de Deus e assumem diariamente esse sinal visível diante da comunidade.
Sentimo-nos humildes e agradecidos como quem busca e trabalha para glória de Deus e não para a sua própria glorificação. Não esquecemos os benefícios recebidos ao longo do tempo nem os testemunhos encontrados em tantos sacerdotes que nos delinearam caminhos e abriram horizontes de vida e de ministério. O exemplo do Santo Cura d’Ars, na simplicidade do seu viver e na grandeza do seu servir, multiplica-se e engrandece-se em inúmeros irmãos nossos que neste setenta e dois anos de vida da nossa Diocese nos mostraram o impressionante caminho de fidelidade e de generosidade.
Somos um presbitério que, pela riqueza das suas origens e pela multiplicidade das suas diversidades, é chamado a experimentar a raiz comum de confiança entre irmãos, a viver uma amizade libertadora e a construir uma profunda e espiritual comunhão.
Sempre preocupados com a busca do melhor, a rezar e a acolher que o Espírito suscite em cada momento o que a cada um é pedido para o bem de todos.
Vimos de origens diversas, servimos em terras diferentes, assumimos responsabilidades variadas, mas tudo unimos na comunhão da Igreja e colocamos diariamente no altar da Eucaristia.
Vemos mais longe do que nós mesmos e amamos para lá de todos, porque desvendamos com esperança o futuro, amamos a Igreja que servimos e damos o tudo da nossa pobreza para que Deus tudo transforme.
Somos um presbitério de coração aberto às comunidades, que se comove com os que sofrem, que sabe que na sociedade em que vivemos são mais os últimos do que os primeiros, os que pagam o preço da crise do que os que a ajudam a resolver e que infelizmente são muitos os ofendidos e os que ofendem.
O segredo da nossa fidelidade e da nossa comunhão nunca será apenas fruto do nosso esforço mas sim da bênção encontrada no jeito próprio da escuta de Deus, na celebração da Eucaristia e no diálogo fraterno entre nós.
Demos graças a Deus pela nossa unidade como Igreja e pela nossa comunhão como presbitério.
“No drama do Calvário decidie-se o nosso destino”
SEXTA-FEIRA SANTA
PAIXÃO DO SENHOR
Deparamo-nos com um Messias sofredor, que renuncia a todos os triunfalismos fáceis e imediatos que uma presumida realeza humana significaria e que a vontade dos mais próximos esperava.
O Evangelho mostra-nos que na Paixão do Senhor se concentraram todos os desvios da humanidade: a traição de um discípulo e amigo que o entrega a troco de dinheiro; a dispersão assustada dos discípulos que fogem e O abandonam; a mentira dos testemunhos falsos, a ambiguidade perversa dos objectivos, a perplexidade e a hesitação de quem julga; a pressão e o constrangimento da multidão amotinada, o silêncio cúmplice dos que tinham o dever de falar, a crueldade e a tortura na execução da pena, não respeitando a dignidade do condenado.
Olhemos o nosso mundo, não ignoremos os que estão dispostos a tudo por dinheiro e esquecem os valores maiores por oportunismo, ou a indiferença dos amigos na hora da provação, ou as incertezas da justiça humana, ou os assassínios de carácter nas praças públicas das multidões descontroladas.
Olhemos o nosso mundo de frente. São tantos, infelizmente, os dramas e os pecados que a todos nos entristecem e magoam e são tão numerosas e aviltantes as fraquezas que fazem parte da sociedade que queremos transformar!
Face aos dramas do mundo e à fragilidade humana vemos como continua a ser importante que Jesus Cristo, o Filho de Deus, tenha suportado e oferecido a sua vida toda, no amor, e que a generosidade da sua morte continue a ser o maior testemunho do amor de Deus por nós, pela Igreja e pelo mundo!
A luta entre o mal e a humanidade trava-se na Cruz e quem sai vencedora é a humanidade que, redimida na Cruz de Cristo, volta a deixar-se atrair por Deus.
O drama do Calvário é grande demais porque ali se decidiu o nosso destino.
Com Jesus, suspenso na tua Cruz, e sustentados no exemplo firme da sua Mãe, também nós rezamos, como criança que estende os braços para a sua mãe ou para o seu pai: «Pai nas tuas mãos, entrego o meu espírito».
«Faz-nos entrar, Senhor,
no caminho pascal
No dinamismo de ressurreição
Que passa pelas dores de quem sofre e de quem faz sofrer
Que supera os limites
e os pecados.
Fortalece, Senhor,
os que acreditam na Páscoa,
Os que defendem a vida
Os que clamam
e promovem a justiça
Os que repartem a misericórdia
E constroem a paz».
“Deus faz nascer o futuro em cada Páscoa”
SÁBADO SANTO
VIGÍLIA PASCAL
Jesus ressuscitou e oferece uma nova luz para o nosso olhar, uma rocha firme para a nossa fé. A fé é fonte da esperança no amor que nos salva. A morte foi vencida e deixa aberta a porta do futuro, que Deus faz nascer em cada Páscoa.
O pecado é redimido pela justiça purificadora da cruz e da ressurreição e o egoísmo cede o lugar ao amor límpido e regenerador da doação da vida de tantos irmãos e irmãs entregues por inteiro ao serviço da humanidade.
Esta certeza enche-nos de alegria e faz exultar o nosso coração. Dá solidez às nossas convicções e revigora as nossas forças. Eleva o nosso espírito e mostra-nos que “tudo é possível a quem crê”.
Foi este, irmãos e irmãs, o lema da caminhada quaresmal que queremos prosseguir no tempo pascal com energia redobrada. Por isso, continuamos a seguir os passos de Jesus, agora nas suas aparições aos discípulos.
Estas aparições são encontros exemplares de quem acaba de viver uma tragédia de morte e desilusão, que se transforma em fonte de vida, força de compromisso e raiz de esperança. Esta é a novidade gerada pelo Senhor ressuscitado no coração daqueles que fizeram a experiência de O ver glorificado.
Também nós, seus discípulos, somos convidados a passar da indiferença e da rotina espiritual ou da indiferença religiosa à aceitação da novidade revigorante da fé, celebrada nos sacramentos e testemunhada na vida familiar, profissional, cultural e social.
Ocorre também neste tempo pascal a Semana de Oração pelas vocações consagradas sob o tema: “ O testemunho suscita vocações”. Compreendeis, irmãos e irmãs, que à luz do mistério da ressurreição e da Páscoa, sinta o dever de convidar toda a Diocese a olhar com o olhar de Cristo ressuscitado para a urgência de novas vocações para a vida sacerdotal, religiosa e missionária. (…) Muitos cristãos vivem um amor crescente pelo nosso Seminário. Há um clima vocacional promissor, sobretudo entre os jovens. A Casa Sacerdotal, qual santuário de gratidão, está a chegar à fase de construção. A hora é de esperança fundada e de alegria confiante.
Nesta hora da vida da Igreja sejamos capazes de nos abrirmos ao dinamismo de purificação e de mudança que em cada Páscoa nasce para sermos Igreja educadora da fé, exemplo de santidade e fundamento de esperança para o mundo.
