Comunidade Gostei da homília do Sr. P.eFausto, na Missa das 12h00 deste Domingo [4 de Dezembro]. E gostei, não só pela profundidade de seu discurso, mas principalmente porque me deu a certeza de que deveria de algum modo intervir com minha humilde opinião em dois processos com demasiados custos para a paróquia da Glória. Trata-se do processo de compra de um órgão de tubos e do processo de instalação de vitrais, ambos para a Sé de Aveiro. Pela entrevista que li neste jornal, na sua edição de 23 de Novembro último, o próprio Sr. P.e Fausto assume que o valor dos vitrais será sempre superior a € 300.000 (trezentos mil euros), e que esse valor é quase que certo que terá que ser inteiramente suportado pela Paróquia, uma vez que a possibilidade de qualquer financiamento exterior a esta está já praticamente excluída. Por outro lado, faz questão de dotar o templo de um órgão de tubos, não se contentando com a reparação do já existente (peça de valor e antiga), que só por si já custaria para cima de € 146.000 (cento e quarenta e seis mil euros) [nota da redacção: o valor está contemplado no projecto Rota das Catedrais], mas querendo mesmo adquirir um novo, que, segundo as suas próprias palavras, custará “na ordem das centenas de milhares de euros”.
Confesso que fiquei assustado com os valores envolvidos (assim sendo, já muito próximos, com certeza, do milhão de euros), e mais ainda quando, à pergunta do entrevistador, se a paróquia teria dinheiro suficiente para tudo isto, o Sr. P.e Fausto responde que “não tem, mas tem que pensar em ter”. É que não estamos a falar de “pensar em ter” € 100.000 (cem mil euros), quantia que já seria avultada!
Estes gastos já seriam, só pelo valor em causa, de obrigar a um estudo muito detalhado das possibilidades efetivas de virem a ser pagos, para mais numa época difícil para todos os paroquianos, e para os portugueses em geral. Mas essa obrigação ainda se impõe mais pelo facto de que se trata da compra de algo que poucas paróquias têm, de algo com cuja ausência se passou bem até agora, de algo impensável em igrejas em África, na Ásia, ou na América Latina. Ao contrário das nossas igrejas, aqui na Europa, aquelas estão despojadas de qualquer luxo, mas repletas de gente, e com graves dificuldades materiais, quase todas absolutamente essenciais para a vivência espiritual e religiosa dos crentes, como acontece em muitas paróquias em que os templos metem água pelo telhado e/ou não têm salas para catequese, ou, pior ainda, como acontece em demasiadas, em que os padres, para além de cumprir com suas obrigações religiosas, têm que trabalhar noutra actividade para se sustentar. Com que coragem vai a paróquia da Glória, e todos nós, avançar para este tipo de gastos , quando todos sabemos disto? Estando os olhos do mundo atualmente focados aqui, na Europa, pela crise que atravessa, vamos difundir uma ideia errada de abundância, e uma ideia que vai com certeza ferir os nossos irmãos que passam graves dificuldades. É que, como dizia o Sr. P.e Fausto em sua homilia, “a nossa abundância fere aqueles que têm falta”!
Peço a Deus que inspire o Sr. P.e Fausto a dinamizar a nossa comunidade, sem necessidade de gastar tanto dinheiro, mas conseguindo reunir à sua volta o rebanho que lhe foi confiado, para trabalhar com verdadeira alegria cristã para o Reino.
João Freitas Pires,
Aveiro
