Cartas dos Leitores É verdade que a Região de Turismo da Rota da Luz candidatou a Ria de Aveiro à eleição das Sete Maravilhas Naturais do Mundo, cuja votação on-line decorrerá até Dezembro de 2008 e cujo anúncio final se prevê acontecer em Janeiro de 2009.
Ao ter conhecimento deste facto fiquei não só surpreendida como perplexa. Isto porque os problemas de poluição são tantos e por resolver que, certamente apenas a questão foi direccionada para o aspecto lúdico, desportivo e económico, uma vez que do ponto de vista ambiental os sucessivos governos e todos nós temos, certamente, muitos problemas de consciência.
No plano interno das maravilhas, a Ria de Aveiro não passou de óptimo caixote de lixo onde desaguavam os esgotos urbanos e industriais de oito concelhos que a bordejam. Era fácil, era barato e contribuía para os milhões de lucros que engordavam os accionistas e proprietários das empresas. Sendo certo que a factura de custos era por conta do erário público e da saúde pública, uma vez que se sabe que os metais acumulados produzem um processo de ampliação biológica, porque alguns compostos atravessam facilmente as membranas e se cumulam rapidamente nos tecidos dos seres vivos aí presentes, especialmente nos que filtram a água, como é o caso dos moluscos. Depressa os metais perigosos chegam à cadeia alimentar de todos nós.
A grande concentração de população nestes concelhos servidos por Câmaras pobres e mal geridas, sem verbas para investir em saneamento básico, completava a embrulhada em que nos encontrávamos.
Sendo certo que o projecto SIMRIA deu um contributo significativo, o facto é que a mentalidade da população, em termos ambientais, mudou muito pouco.
Ainda recentemente, passando no Canal Central, junto ao Fórum, verifiquei que saía de um cano de esgoto uma quantidade de efluente que provocou uma enorme mancha amarelada e com espuma abundante. Como é possível estarmos neste estado! Será que alguém sabe qual a proveniência destes canos?
Durante o passado Verão fui fazer um passeio de barco pela Ria. Comprei o meu bilhete na sede da Rota da Luz, e lá fui à aventura com duas dezenas de turistas, entre eles alguns estrangeiros, e confesso que no fim da viagem senti pena de ser portuguesa.
Achei inaceitável a forma como este decorreu. O percurso é simplesmente degradante. Há restos de obras, plásticos, entulho de vária ordem, monstros urbanos, brindando-se ainda o cliente com o pior que a Gafanha tem para oferecer: cais escuros e degradados e sucata. É isto que se mostra aos turistas, é isto que a Rota da Luz tem para oferecer. Poderia e deveria minimizar um pouco esta tristeza, fazendo o percurso até à Fonte Nova, estabelecendo uma parceria com o hotel aí existente, onde poderia ser servida uma bebida, porque não “um porto de honra” com ovos moles, promovendo desta forma o que é nosso.
Enfim, visão estratégica precisa-se!
No que ao Rio Vouga diz respeito é urgente avançar com as obras da Pista de Remo do Rio Novo do Príncipe, pois permitem requalificar a zona do ponto de vista ambiental com a criação de um reservatório de água onde é possível facilmente controlar a qualidade da água a despejar na ria, para além de tudo o que se tem dito, e bem, sobre este empreendimento que há muito se deseja e merece.
Enfim… é a Ria de Aveiro – uma maravilha que precisa ser apoiada e respeitada.
Rosa Maria Pratas Melo,
Presidente da Direcção da ADACE – Associação de Defesa do Ambiente. Cacia – Esgueira.
