A ousadia do elogio à fraternidade

Diálogo na Cidade Maria do Rosário Carneiro, professora da Universidade Católica e deputada até as últimas eleições, e Manuel Carvalho da Silva, sindicalista, protagonizaram o mais recente “diálogo na cidade”, na noite de 22 de Novembro, no Teatro Aveirense. Numa organização da Comissão Diocesana da Cultura, com a colaboração da Câmara Municipal de Aveiro, a sessão teve como tema a “ousadia do elogio da fraternidade na família e no trabalho”. Antes do diálogo, a médica Marta Parada brindou os presentes com melodias brasileiras e o “Poema do Autocarro”, de António Gedeão. Ideias principais resumidas por Jorge Pires Ferreira, que moderou o diálogo.

Maria do Rosário Carneiro

Família e fraternidade

Abertura à realização dos outros

Fraternidade na família? Pais e filhos só têm existência graças aos vínculos fechados, mas participam na vida de todos os seres da natureza. Segundo o princípio do bem comum, cada um não se realiza se não se abrir à realização dos outros. A família tem uma função humanizadora. O amor fraterno, gratuito, solidário, abre para a construção de projecto de vida com todos.

Pensamento económico

A vida económica dificulta a vida da família, quando tudo é pensado em termos de custo-benefício: “Quanto vale? A que preço fica isto?” Quando predominam estas perguntas, percebe-se o porquê de tão poucos filhos. Ter filhos torna-se uma proposta ousada por não haver retaguarda de segurança.

Valores vividos

Mais fraternidade e mais solidariedade, porque somos todos membros de uma comunidade em construção. O caldo dos valores transmite-se porque são vividos e não por serem ditos. O que os nossos filhos aprendem é o que vivemos e não os nossos discursos. Aprendem a solidariedade porque fazem parte de uma comunidade onde têm responsabilidades. A família é serviço e exige espírito se serviço, sempre gratuito.

Assimetria na família

A família não é uma comunidade de papéis e funções iguais. É assimétrica. A família aprende-se na assimetria dos papéis. Repete-se por todo o lado que os pais são como que uns amigos mais velhos dos filhos. É errado. Há diferença de poderes na família, mas isso não é desigualdade.

Manuel Carvalho da Silva

Trabalho e fraternidade

Seis questões prementes do trabalho

Há seis questões prementes que devem ser colocadas a partir do trabalho: 1) Discutir e encontrar novos paradigmas para a empresa e o trabalho no contexto das mudanças da economia; 2) Valorizar o trabalho para que não se caia na mera subsistência; 3) Repensar o tempo, porque tirar o controlo do tempo é “infernalizar” a vida toda; 4) Construir segurança e estabilidade no trabalho, contra a precariedade; 5) Regularizar a relação capital/ trabalho para sustentar a segurança social; 6) Reforçar a constatação de que nada contribuiu mais do que o trabalho, em especial a contratação colectiva, para a uma distribuição mais equitativa da riqueza na segunda metade do séc. XX.

Sindicalismo e democracia

O sindicalismo esteve em todas as conquistas políticas e é fundador da democracia. Se o Estado social entra em crise, perdem-se as conquistas e entra-se numa crise de dimensões impensáveis. Os sindicatos estão no sistema, participam no sistema, põem o sistema em causa e chamam a atenção para novas situações. Há a ilusão de que é possível substituir o Estado social. É uma ilusão perigosa.

Crise como oportunidade

A crise é financeira, económica, política, social, energética, climática. Requer uma solução abrangente. A fraternidade tem fortes raízes nas corporações religiosas. Mais do que falência, há uma reposição dos valores. A não-ideologia é a ideologia das ideologias. As crises não trazem apenas dificuldades. São oportunidades de mudança.

Os grandes fogem à responsabilidade

É preciso muita discussão social e política para trazer as pessoas à participação. Os grandes efeitos estão sem responsáveis. Os grandes poderes fogem à responsabilidade.