Perguntas e respostas sobre liturgia – 3 Há alguma razão para que, ao longo do ano, os sacerdotes usem vestes nas celebrações vestes distintas daquelas que são de uso diário na nossa sociedade?
Certamente, ao colocar esta questão, quer-se saber a razão ou o motivo do uso de vestes ou paramentos. É uma questão pertinente. Mas, antes de responder a esta questão, gostaria de abordar a razão de ser do uso das vestes.
De facto, não é indiferente o modo que uma pessoa usa para se vestir. Há determinadas situações que requerem vestes apropriadas. É uma questão cultural. Baste recordar um exemplo tão comum: no dia do casamento, a noiva gosta de usar um vestido especial para uma ocasião tão importante, como o acto de casar…
A veste diferencia as pessoas (autoridades, militares, juízes, distintas classes de famílias religiosas…) e as circunstâncias (luto, festa). É um elemento não essencial mas expressivo em todo o complexo das comunicações humanas e sociais.
Não é de estranhar que também na celebração cristã a veste tenha a sua importância. Além de obedecer às leis da psicologia humana ou das diferenciações sociais, neste caso concreto, a veste apontará para a natureza do mistério que os cristãos celebram. Uma missa em que o presidente não se revestisse de modo especial “valeria” o mesmo. Mas certamente seria uma celebração muito pouco digna e pouco expressiva do que a comunidade cristã entende da Eucaristia. Pode celebrar-se o sacramento da Reconciliação sem vestes litúrgicas. Mas o Ritual indica que, se se faz na igreja, o ministro receba os penitentes revestido de túnica e estola: a veste quer, de alguma maneira, expressar que o que ali acontece não é um mero diálogo entre amigos, mas uma “celebração” eclesial.
Os fiéis cristãos também se devem revestir?
Numa das perseguições romanas foi confiscada uma casa em Cirta, no norte de África, no ano 303. Os guardas fizeram um cuidadoso inventário de tudo o que encontraram no local da reunião dos cristãos. Entre os diversos objectos de valor de que tomaram nota, além de dois cálices de ouro e seis de prata, de códices e de lâmpadas, constam também umas vestes, que podem parecer-nos estranhas: 82 túnicas para mulheres e 16 para homens… Já nessa época as mulheres eram a maioria na assembleia, tal como hoje… Mas o que é raro é que naquela assembleia parece que todos se revestiam de túnicas especiais, para além dos ministros…
Os cristãos acentuam com vestes diferentes a solenidade ou as características do que celebram, como no matrimónio, na primeira comunhão, nas vestes austeras, em séculos passados, que os “penitentes” se impunham, as vestes das irmandades, na profissão religiosa, etc.
No sacramento do Baptismo, depois do gesto da água, entre as acções simbólicas “complementares” ou “explicativas”, está a imposição da veste branca. A intenção é clara: o novo “estado” do cristão é um estado de graça, de “revestimento de Cristo” (Gál 3, 26; Rom 13, 14). A sua dignidade e o dom da nova vida em Cristo, são significados com a veste branca, que se pode conservar como recordação do sacramento celebrado. Neste caso, a veste quer ajudar a entender em profundidade o que acontece no sacramento do Baptismo. Com uma ressonância clara de duas passagens do Apocalipse, em que os seguidores vitoriosos de Cristo aparecem também com túnicas brancas, cantando ao seu Senhor (cf. Apoc 7, 9), como “convidados para as bodas do Cordeiro” (Apoc 19. 9).
No geral, pode considerar-se que a comunidade cristã sublinha a Eucaristia dominical com as suas roupas de festa. Também aqui a veste tem a sua eloquência: os cristãos “endomingam-se” no Dia do Senhor, distinguindo-o dos dias de trabalho. Não é isto um sinal de liberdade, de vitória, de celebração?
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro
