A pessoa com deficiência, uma realidade escondida?

Fernando Vieira, formado em psicologia, trabalha há 28 anos na CERCIAV (Cooperativa para a educação e Reabilitação dos Cidadãos Inadaptados de Aveiro). Desde 1997 é presidente da direcção desta instituição, que se dedica às pessoas com deficiência. Porque a CERCIAV está a comemorar 30 anos, Fernando Vieira foi o convidado do Fórum Universal, no dia 5 de Abril, no Centro Universitário Fé e Cultura. Aqui ficam excertos das suas palavras.

Pessoa com deficiência

“A pessoa com deficiência, uma realidade escondida?” Brincando um pouco com as palavras, a pessoa com deficiência é uma realidade escondida, cada vez menos. O ideal é que, ao tornar-se manifesta, não se dê por ela. Cada vez mais.

Direito à educação

A CERCIAV começou com a escola especial, há 30 anos, ao lado do Conservatório de Aveiro [hoje, as instalações principais ficam na Gafanha da Nazaré]. Na altura, a preocupação era o direito à educação, depois de séculos em que as pessoas com deficiência mental foram metidas em asilos. Muitos dos nossos utentes mais velhos nunca foram à escola. Alguns foram apenas um mês, uma semana ou um dia. Naquela altura, havia psiquiatras ou neurologistas que passavam um atestado a dizer que “este menino tem um atraso mental – reparem na linguagem – que impede qualquer aprendizagem”. Invariavelmente, escreviam-se montes de atestados para estes meninos saírem da escola.

As primeiras três CERCI surgiram em 1975. A de Aveiro surgiu com uma parceria em que havia responsáveis do Hospital, do Serviço de Pediatria, do Magistério Primário, da Segurança Social. Já se percebia que isto tinha de ter várias manifestações. Parcerias. Não podíamos trabalhar sozinhos.

Direito ao trabalho

Prioridade inicial: que todas as crianças com deficiência fossem a uma escola, mesmo que fosse uma escola especial. Os irmãos vão para uma escola regular, eles vão para uma escola especial. Ao fim de tarde, regressam todos a casa. Quando atingiam 14, 15 anos, punha-se outra questão: o direito ao trabalho. Não podiam continuar eternamente na escola.

Direito à cidadania

Com o avançar do tempo, verifica-mos que tanto o direito à educação como o direito ao trabalhão faziam parte de um outro direito e de um outro conceito muito mais alargado, que é o direito à cidadania: ser considerado cidadão e ser visto como cidadão. Por sua vez, a cidadania supõe a autodeterminação, isto é, a pessoa decidir sobre a sua vida: o que quer vestir, onde quer ir, o que quer viver, como quer viver…

Deficiência superior à pessoa

Uso óculos e tenho miopia. O facto de usar um auxiliar de visão não põe em causa a minha condição de cidadão. Se uso canadianas, toda a gente vê que tenho uma limitação ao nível da mobilidade. Por exemplo, tenho de sair mais cedo de casa para chegar a horas ao trabalho. Mas a minha condição de cidadão não é beliscada por causa disso. Mas, se eu andar de cadeira de rodas, não sei se a maneira de olhar para mim e o sentimento que desperto nas pessoas será o mesmo. Quando as pessoas estão de pé, eu estou sentado. Estou numa posição inferior. Tenho de olhar para cima. Já não estou ao mesmo nível.

Invertamos a situação. Sou fisicamente perfeito. Mas ao nível da cognição, estou seriamente afectado. Tenho um funcionamento cognitivo semelhante ao de uma criança de quatro anos. Será que alguém vai olhar e ver em mim um cidadão? A primeira tendência será lidarem comigo como se eu tivesse a idade que pareço ter e não a idade que realmente tenho. Ou seja, lidarem como seu eu tivesse quatro anos, aquilo a que se chamava “idade mental”. E por isso tratam-me por “tu”, usam diminutivos, obrigam-me a ir para onde querem, obrigam-me a comer tudo e de tudo… Mandam em nós. Esta é a tendência mais generalizada. Só porque não funcionamos ao nível intelectual como as pessoas que não têm deficiência! Onde está a pessoa? Onde está o cidadão?

Pessoa superior à deficiência

O desafio é: procurar ver a pessoa para lá das deficiências. Trinta anos depois de aparecerem as CERCI, diz-se “pessoa com deficiência”. Antes havia “deficientes” – sem pessoa. Quando muito, dizia-se “o Deficiente”. Volto à questão inicial: A pessoa com deficiência, uma realidade escondida? O ideal é que, ao tornar-se manifesta, não se dê por ela. Felizmente, temos muitos exemplos de pessoas apoiadas pela CERCIAV que estão integradas em ambientes de trabalho. Nota-se a pessoa, não se dá pela deficiência. É para isto que trabalhamos.

Fala-se muito de assumir a diferença. Somos todos pessoas, mas todos diferentes. Há pessoas que têm deficiência e outras que não têm. Isso é um dado objectivo. Temos que lidar com ele. É por isso que tem que haver pedagogias especiais numa escola. Se ela tem alunos com deficiência, é importante que os professores saibam que a têm. Só assim podem adaptar e utilizar metodologias diferenciadas para responder da forma mais adequada a essa pessoa. É um aluno enquanto aluno; mas se tem uma deficiência, é preciso estar bem caracterizada, para se poder intervir da forma mais adequada. Já falar de normal e anormal, isso está ultrapassado.

Apenas boas intenções?

Tento que não organizemos nada no dia da pessoa com deficiência. Fico sempre de pé atrás com os dias disto e daquilo. Quase sempre não passam de boas intenções. Mas há aspectos positivos. Hoje, nas nossas ruas, quase todos os passeios têm acessos desnivelados para pessoas que andam em cadeiras de rodas.

Quem hoje convive com pessoas com deficiência, amanhã, quando for professor ou empresário, estará muito mais sensível. Será muito mais fácil abrir as portas.

Apoios necessários

Na deficiência mental não há adaptações, como com um cego ou alguém que trabalhe de cadeira de rodas. Nesses casos, os postos de trabalho podem ser adaptados. Com a deficiência mental, a rentabilidade sofre; donde, a empresa, para continuar a ter uma pessoa com deficiência mental, tem de ter alguma comparticipação do Estado. E essa comparticipação deveria manter-se enquanto fosse necessária. Toda a vida, se necessário. Isso faria com que muitas mais pessoas pudessem estar em locais de trabalho.

Empresários sensíveis

Os empresários, que, ao contrário das ideias feitas, não estão só a olhar para os cifrões, estão muito sensíveis a aceitar estas pessoas nas suas empresas. Durante um, dois ou três anos, não têm de pagar, porque as pessoas com deficiência têm uma bolsa de formação. Só que, com expectativas normalmente baixas, ao fim de um ou dois anos de os terem e verem como são capazes de funcionar, são eles próprios que têm a iniciativa de dar mais qualquer coisa. São eles que dizem: “Ele trabalha para mim, ele produz, até me sinto mal que ele receba só a bolsa que vocês lhe dão”. A alguns, até temos de dizer: “Não dê tanto”.

Afectividade

em várias modalidades

As pessoas com deficiência mental vivem os sentimentos e a sexualidade como qualquer um de nós. Quanto mais os conhecemos, mais os vemos a funcionar mais parecidos connosco do que diferentes de nós. Já assisti ao nascimento de alguns namoros, que começam com um olhar comprometido, uma mão dada, um beijo furtivo. Algumas instituições proíbem.

O conceito que aceito é este: tal como no trabalho não têm todos as mesmas saídas profissionais – alguns podem ter um contrato de trabalho, outros são integrados a nível de emprego protegido e outros têm só trabalho ocupacional -, há pessoas capazes de constituir família, outros podem ter uma relação afectiva, mas não têm capacidade para criar filhos; outros não têm capacidade para viver um com o outro. São eternamente namorados.