A pessoa primeiro!

Ficou bem, ao eleito Presidente da República Portuguesa responder à estratégia do maldizer – que já enjoava! – com a afirmação de que a sua vitória não era a derrota de ninguém. Precisamos de quem aprecie os valores dos outros, diferentes ou mesmo opostos que sejam, sem fazer deles injustificadas pedras de arremesso. Não que o Presidente da República tenha de ser “evangélico exemplo de caridade cristã”; mas cabe-lhe grande responsabilidade de dar exemplo de boa educação e delicadeza. E, se as suas convicções cristãs lhe dão força para isso, tanto melhor!

Também caiu bem que dissesse: “As pessoas serão sempre a minha atenção enquanto PR”, porque “as pessoas são o fim último da actividade política”. Não o diga somente, Prof. Cavaco Silva. Torne-o a prática quotidiana da suas responsabilidades de supremo representante da Nação. E também aí não se canse não só de dar exemplo a toda a classe política, mas também de intervir, no âmbito das suas competências, para que a pessoa humana, os seus direitos, liberdades e garantias fundamentais, como os seus deveres de cidadania, sejam o motivo e o fim de toda a acção e estratégia política.

O Povo escolheu! E o Povo não é imbecil, como tantas vezes é considerado. Tem as suas paixões e “fanatismos clubísticos”, mas consegue ultrapassar a lógica das máquinas partidárias e, às vezes, dá-lhes claras lições de sensatez. Não somos uma democracia amadurecida; mas temos uma matriz de valores que resiste a lavagens ao cérebro, mesmo quando os interesses que as promovem são fortes, subtis, mesmo ocultos.

Talvez estejam os portugueses cansados de estafadas ideologias, que abafam o desejo da poesia e da música – ou que as instrumentam para alienar. Não somos só números, resultados de produção, embora tudo isso seja fundamental para crescermos. “O desenvolvimento só é económico para ser social”. Mas, para o assumir e viver, é indispensável ter um lastro cultural de valores superiores, que assentam essencialmente numa concepção elevada da vida, da pessoa humana, do serviço a elas, prévia a toda a estrutura e organização social, que não tem razão de ser senão em função das mesmas.

Desejamos que as querelas partidárias não esboroem a riqueza de diversidade que nos chegou nestes dias; antes a integrem num esforço conjunto para bem da Nação, que será o bem dos portugueses.