A pobreza combate-se com educação

Encíclicas Sociais: Populorum Progressio (2) Jean-Yves Calvez, padre jesuíta e teólogo francês que participou na redacção da Populorum Progressio (PP), afirmou recentemente ao jornal “Público” que “toda a gente” imaginava que era uma questão de “curto prazo” acabar com a miséria.

Porém, “toda a gente falhou: economistas, políticos, todos os que se implicaram na questão do desenvolvimento nos anos 50-60. Imaginavam que, com uma política monetarista e meios financeiros, se poderia elevar o nível de toda a população que tínha-mos deixado ao abandono no tempo colonial”, afirmou em 2007, quando se comemoravam os 40 anos da PP (lançada a 26 de Março de 1967).

Já em 2008, num congresso em Roma para comemorar o documento papal, alertou-se para o fracasso das ajudas exteriores para promover o desenvolvimento. Uma investigação sobre um programa de hospitais rurais no Chade revelou que apenas 1 por cento do dinheiro foi gasto nos projectos dos hospitais. E foi dito, também, que 40 por cento dos gastos militares africanos é involuntaria-mente financiado pelas ajudas. “As ajudas recompensam as elites governantes naqueles países nos quais essas mesmas elites mantêm os seus povos na pobreza. As ajudas tornam mais provável o facto de o governo incompetente, corrupto ou brutal sobreviver, porque as ajudas proporcionam recursos com os quais as elites governamentais podem aliviar alguns dos problemas internos provocados por governos pobres e injustos”, afirmou na ocasião Philip Booth, do Institute of Economic Affairs de Londres.

Não chega ajudar. É preciso que a ajuda chegue ao sítio certo e incida nas actividades e pessoas certas. Paulo VI aponta o caminho: “Pode mesmo afirmar-se que o crescimento económico depende, em primeiro lugar do progresso social que ela pode suscitar, e que a educação de base é o primeiro objectivo dum plano de desenvolvimento. A fome de instrução não é menos deprimente que a fome de alimentos: um analfabeto é um espírito subalimentado. Saber ler e escrever, adquirir uma formação profissional, é ganhar confiança em si mesmo e descobrir que pode avançar junto com os outros”.

Desta encíclica ficaram para a história meia dúzia de frases de Paulo VI que mostram a perspectiva cristã do desenvolvimento. Integram a cultura geral católica sobre o social:

* “Fiz-me, na ONU, o advogado dos povos pobres” (4).

* “O desenvolvimento não se reduz a simples crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todas as pessoas e a pessoa toda” (14).

* O desenvolvimento é um “dever pessoal” e “comunitário” (15-17).

* “O dever de solidariedade é o mesmo, tanto para as pessoas como para os povos” (48).

* “O supérfluo dos países ricos deve pôr-se ao serviço dos países pobres” (48).

* “O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre as pessoas e entre os povos” (66).

* “O desenvolvimento é o novo nome da paz” (76).

* Cristãos e não-cristãos são convidados “a trabalharem, de todo o coração e com toda a sua inteligência, para que todos os filhos dos homens possam levar uma vida digna de filhos de Deus” (82).

* “Se o desenvolvimento é o novo nome da paz, quem não deseja trabalhar para ele com todas as forças?”

A primeira frase

“O desenvolvimento dos povos, especialmente daqueles que se esforçam por afastar a fome, a miséria, as doenças endémicas, a ignorância; que procuram uma participação mais ampla nos frutos da civilização, uma valorização mais activa das suas qualidades humanas; que se orientam com decisão para o seu pleno desenvolvimento, é seguido com atenção pela Igreja” (PP 1).