O que diz… Vasco Pinto de Magalhães foi o último convidado das tertúlias do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas) neste ano letivo. Na sessão que teve lugar no Centro Universitário, na noite de 2 de maio, moderada por Belmiro Fernandes Pereira, o padre jesuíta defendeu que ressurreição e reencarnação são “dois conceitos globais que não se compatibilizam”. “A reencarnação supõe irresponsabilização” e apoia-se em “conceções erradas de Deus, do universo e da história”. Ideias principais recolhidas por Jorge Pires Ferreira.
Contexto
A reencarnação [não confundir com a Encarnação, só uma, a de Jesus Cristo; reencarnação é a ligação da alma a sucessivos corpos até atingir um estado de perfeição], na atualidade, parece ganhar terreno nas convicções das pessoas, segundo revelam alguns inquéritos. Perante uma vida tão pequena, tão curta, a reencarnação parece lógica para resolver a injustiça e o sofrimento, descartando o inferno e o purgatório. Para alguns parece cativante. O Dalai Lama chegou a dizer que a reencarnação reduz o racismo devido à crença na passagem da alma por diversos corpos de pessoas de diferentes culturas.
Caipirinha de conceitos
A crença da reencarnação, tendo origem oriental, surge no Ocidente principalmente a partir do séc. XIX, muito por influência espiritismo de Alain Kardec. Hoje, fomenta ou coabita com crenças na astrologia, espiritismo, gnose, new age. As pessoas fazem uma caipirinha de conceitos. Cada um faz a sua religião tirando um bocado daqui e outro dacolá.
Ressurreição
no Antigo Testamento?
No Antigo Testamento há ambiguidade quando se fala de ressurreição. A fé na ressurreição ainda não era explícita. Em alguns livros, como o de Ezequiel, parece começar a surgir a fé na ressurreição. Só com a experiência de Jesus Cristo (Novo Testamento) se torna claro o que é a ressurreição. Mas não há, na Bíblia, crença na reencarnação, ainda que alguns a defendam, apoiando-se na passagem em que Jesus diz que João Baptista é o novo Elias. Tal interpretação é um abuso e revela desconhecimento da linguagem e simbologia bíblicas. Por outro lado, o que aconteceu a Lázaro não foi uma ressurreição. Foi uma reanimação ou ressuscitação. Lázaro voltou a morrer. Neste caso não se pode falar de ressurreição com propriedade, embora tal tenha entrado na linguagem comum.
Ressurreição, o que é?
A ressurreição não é voltar a este mundo; é entrar no outro. É a admissão noutra forma de vida completamente diferente. É erro pensar que a alma vai para o céu e que o corpo vai lá ter mais tarde. A ressurreição é uma transformação completa em que finalmente seremos aquilo que somos e que queremos ser. É a “plenificação” transfigurada da nossa realidade.
Conceitos incompatíveis
Ressurreição e reencarnação são dois conceitos globais que não se compatibilizam. Por detrás de cada um deles estão diferentes conceções de Deus, do universo e da história.
Deus
Para o cristianismo, Deus é pessoa; é possível estabelecer relações interpessoais com Ele; é Criador. Há uma relação Eu-Tu. Há amor e pode haver pecado. Na mentalidade da reencarnação, Deus é uma energia, um estado, não há relação interpessoal.
Universo
Segundo o cristianismo, o universo é criado e é bom. É amado por Deus para ser transfigurado. Nas culturas da reencarnação, o universo é mau, pelo que é preciso libertar-se dele.
História
Para a fé na ressurreição, a história é linear. Teve um princípio, tem um meio, terá um fim. Para a reencarnação, a história é cíclica. Tudo vai e vem. “Sou eu que me salvo”, com as muitas voltas que o mundo dá; não é Deus que salva.
E no final
das reencarnações?
A crença na reencarnação diz que no final das sucessivas reencarnações acontece uma última e entra-se num novo estado. Uma espécie de ressurreição no final de tudo? Então, o divino parece brincar connosco, pois não valoriza o meu pecado e o meu amor. Não há verdadeira opção de liberdade. Reencarnação supõe irresponsabilização.
Dificuldades de linguagem
Falamos com uma antropologia que não é cristã quando separamos corpo e alma. Não há alma sem corpo nem corpo sem alma. Vamos morrendo aos poucos. Todos os dias perdemos células. O meu corpo nada tem do meu corpo de há anos, mas eu sou a mesma pessoa. Já ninguém tem o mesmo corpo que tinha quando aqui entrou. O corpo não é uma quantidade bioquímica. É o meu modo de estar em relação. Sou as minhas relações. Corpo e alma não são separáveis nem são duas coisas; são duas maneiras diferentes de falar da mesma coisa. Quando alguém morre, o que fica não é corpo. É cadáver, restos mortais. Não se tem corpo e alma. É-se. Eu sou.
Desvalorização do corpo
Na reencarnação, falando-se de transmigração da alma, a dimensão corporal é desvalorizada. A ressurreição, afirmando-se corporal, realça a totalidade da pessoa. A conceção que permite a reencarnação é anticientífica e contrafilosófica. A ideia da reencarnação pode resolver problemas emocionais se as pessoas não pensarem muito.
Céu
Ressurreição, na morte e pela morte, é ultrapassar o pecado e entrar em comunhão com Deus. O que mata não é a morte, é o pecado. A morte apenas transfigura. Falamos de corpo espiritual porque sem corpo não há possibilidade de relação. A relação de amor ressuscita. O céu é onde seremos quem verdadeiramente somos.
