A Semana

É impressionante a onda de informação e de contra-informação sobre o estado de saúde do Papa. Apesar de João Paulo II continuar a trabalhar, decerto em consonância com a sua idade e capacidade física, não deixa de espantar esta procura incessante de notícias sobre a sua situação física. A personalidade carismática do Papa e um grande carinho pelo seu exemplo estarão certamente na base daquela onda.

A propósito deste interesse, dizia há dias um padre, numa das nossas televisões, que nós, os católicos, sem deixarmos de nos preocupar com a saúde, temos a obrigação de mostrar que aceitamos a morte e a velhice com naturalidade, até porque acreditamos que a vida continua para além delas. Não fará sentido, então, estar-se sempre a especular sobre quando morrerá o Papa e sobre os seus eventuais sucessores, porque isso acontecerá, certa mente, sem que ninguém saiba quando.

Para já, e isto é importante que se diga, o Santo Padre está a dar um extraordinário exemplo ao mundo, provando que o trabalho dos idosos continua a ser tão necessário como o dos mais novos. A sua palavra autorizada e oportuna, o seu testemunho de amor e a sua entrega à missão que assumiu em plenitude são tão válidos, hoje, como há 25 anos atrás, apesar das suas debilidades físicas.

Para quê, então, continuarmos a alimentar especulações sobre o seu estado físico, quando, afinal, ele continua activo, com algumas limitações, é certo, mas tão necessário ao mundo como desde a primeira hora em que se sentou na cadeira de Pedro? E quando for para o Pai, então é que sentiremos a sua falta e recordaremos, para sempre, o seu exemplo de autêntico homem de Deus.

Em política, há erros que não se podem cometer. E também é verdade que um político, sejam quais forem as suas responsabilidades, não pode facilitar nem optar por ilegalidades, nem por soluções dúbias. Ao mínimo descuido, por mais honesto e cumpridor da lei que ele seja, pode acontecer-lhe o que aconteceu ao ministro da Ciência e do Ensino Superior, Pedro Lynce, que se viu obrigado a apresentar o seu pedido de demissão. Com dignidade, diga-se de passagem, e sem fugir às responsabilidades que lhe cabem, neste processo ainda não totalmente esclarecido, sobre quem o levou a tentar contornar o que estava legislado.

Objectivamente, alguém puxou o tapete debaixo dos seus pés, quando lhe apresentou a despacho um parecer relativo à candidatura de uma aluna à entrada na Faculdade de Medicina, à revelia das leis em vigor. Era filha de um colega de Governo, do ministro dos Negócios Estrangeiros, que nada fez para isso, conforme jurou, mas que terá pactuado com o requerimento assinado pela filha.

Pedro Lynce, que é tido por homem honesto e incapaz de ceder a pressões, facilitou e assinou por baixo. Reconheceu o erro e deixou o Ministério. Mas também mostrou que hoje, num Estado de Direito, lapsos destes pagam-se caro. E não fez como outros políticos que, escudados pela imunidade que o poder político com frequência oferece, quantas vezes vão escapando à justiça.