Como era de prever, Martins da Cruz deixou o Ministério dos Negócios Estrangeiros, não por solidariedade para com o seu colega do Ministério da Ciência e Ensino Superior, Pedro Lynce, mas porque se sentiu ofendido na sua honra e dignidade com as acusações de que estaria cúmplice de manobras para alterar a lei, com vista a beneficiar a filha. Mas vamos mudar de página, porque já temos a sucessora de Martins da Cruz.
Com a sua demissão, a comunicação social multiplicou-se em diligências na tentativa de descobrir quem seria o novo ministro dos Negócios Estrangeiros. Cargo difícil e que exige capacidade negocial a nível internacional, não seria fácil de preencher. Conceituados analistas políticos chegaram mesmo a dizer que tinham olhado para todos os lados e que na área do PSD não viam ninguém à altura das funções.
Horas depois de tanto se falar, Durão Barroso escolhe Teresa Patrício Gouveia, uma mulher já com experiência governativa nas áreas da Cultura e do Ambiente, no tempo do Prof. Cavaco Silva. E com esta nomeação, não se fizeram esperar os elogios à opção do primeiro-ministro, vindos de vários quadrantes políticos, muito embora alguns tivessem adiantado que o mal estaria na política do Governo, que não na pessoa, que todos consideravam à altura das funções, com a ajuda, em algumas matérias, do Chefe do Governo.
Uma mulher conseguiu, neste caso, suscitar consensos respeitosos, o que nos leva a pensar e a afirmar que há muito a nossa política vem precisando de mais mulheres, não pelo simples facto de elas deverem ter, na prática, os mesmos direitos que os homens, a todos os níveis, mas sobretudo porque gozam do privilégio de nos seus genes predominar sensibilidade, bom senso, serenidade e competências que durante séculos lhes negaram e que muita falta fazem na política, tão masculinizada está ela.
O Procurador Geral da República, Souto Moura, afirmou que somente estaremos verdadeiramente num Estado de Direito, quando os políticos forem tratados pela Justiça como quaisquer cidadãos comuns. Isto quer dizer que no nosso País, pese embora vivermos em democracia há mais de um quarto de século, tal não tem acontecido. Não pode haver outra interpretação para a sua denúncia.
Como é sabido, as leis, numa sociedade democrática, são feitas pelos políticos, segundo o que pensam ser o melhor para o povo. Quando alguém transgride, cabe aos Tribunais aplicar as penas respectivas. E assim se vai vivendo.
O chamado caso da pedofilia na Casa Pia, porém, veio mostrar as fragilidades das nossas leis, coisa que ninguém tinha verificado até aí, apesar de haver milhares de presos preventivos no País, muitos deles sem conhecerem realmente a matéria da acusação. A prisão de um político e de gente mediática, contudo, mexeu com meio mundo. Aqui-d’el-rei que não pode ser… as leis têm de ser alteradas… somos o único país onde isto acontece… etc…. etc.
Pois é. Souto Moura tem razão. Enquanto a gente comum sofria e sofre na prisão, estava tudo certo. Agora, com mediáticos (presumíveis inocentes até prova em contrário) a pressionarem os poderes com a ajuda dos grandes órgãos de comunicação social, já não falta quem exija a imediata alteração das leis.
