DOM CARLOS FILIPE XIMENES BELO
Bispo Tit. de Lorium e Administrador Apostólico Emérito de Dili-Timor Leste
Se há ocasiões do ano em que os habitantes da cidade de Larantuca, capital do Concelho de Flores Timur, Indonésia, vivem as cerimónias imbuídas de tradições portuguesas, é na Semana Santa. Larantuca foi das primeiras missões abertas pelos dominicanos portugueses em finais do século XVI. Em 1660, com a queda da possessão portuguesa de Macáçar, a comunidade local é enriquecida com a chegada de mais cristãos, uns chegados de Malaca e outros de Macáçar. Foi graças aos missionários dominicanos que se constituiu a Confraria de Nossa Senhora do Rosário, que ainda hoje persiste, e que ao longo de quatro séculos continua a chamar-se “Konfreria Reinha Rosari”. Os membros desta Confraria são senhoras, de idade compreendida entre 60 a 70 anos e que, todos os sábados de manhã, se reúnem na Capela de Nossa Senhora das Dores (Mater Dolorosa), para aí rezarem orações e cantarem cânticos em português antigo.
Larantuca, uma cidade com 50 mil habitantes, durante a Semana Santa, é invadida por dezenas de milhares de peregrinos, provenientes do Arquipélago da Indonésia, para assistirem à célebre Procissão que se realiza na noite de Sexta-feira Santa, e que, em geral, se prolonga das 19 até às duas horas da madrugada. Não é a procissão do Senhor dos Passos, nem é a procissão do enterro de Cristo morto. É uma procissão sui generis.
Em Larantuca, o Domingo de Ramos, que os locais chamam “Dominggu Ramu”, marca o início da “Semana Santa” (os larantuqueiros conservam esta terminologia portuguesa). Na Quarta-feira, “Rabu Trewa” (quarta-feira de trevas), o ambiente social é de verdadeiro retiro: é proibido realizar festas, não pode haver comezainas e bebedeiras, nem discussões ou zaragatas; é proibido pescar, trabalhar nos campos, cortar árvores, apanhar lenha, buscar água, pilar o arroz ou milho, construir casas e fazer longas viagens. É um dia dedicado ao recolhimento e à oração; e um dia dedicado á limpeza geral da cidade. Nas principais ruas onde vai passar a procissão, erguem-se oito “Armidas” (ermidas); são construídos, com ripas de bambu, quilómetros de sebe ao longo das duas margens da estrada. Nessa sebe são colocadas centenas de milhares de velas, feitas de favos de mel silvestre por senhoras, membros da Confraria. Na quarta e na quinta-feira, os peregrinos, chegados dos recantos mais longínquos da Indonésia, cumprem as promessas (em Larantuka, dizem mesmo “promessa”) nas duas capelas emblemáticas da cidade: a capela da Senhora Mãe, ou “Gereja Tuan Ma”, dedicada a Nossa Senhora “Mater Dolorosa” e Capela do Menino Jesus ou “Gereja Tuan Ana ou Kapela Santo Meninu”. Nesta última, está guardado um caixão contendo a relíquia da imagem do Menino Jesus, que, segundo a tradição, foi encontrada no mar de Flores no século XVII, e desde então é venerada pelos habitantes de Larantuka. Convém recordar que este pequeno caixão é tão sagrado que nunca ninguém o abriu, nem mesmo o Bispo da Diocese está autorizado a fazê-lo. Em 1979, deu-se um terrível terramoto na cidade Larantuka. Centenas de casas foram destruídas literalmente por pedregulhos que vinham das encostas da montanha Mandiri. Morreram 163 pessoas… Mas as duas capelas ficaram de pé, intactas…
O clímax de toda a Semana Santa é o dia da Sexta-feira Santa. Depois das cerimónias que se realizam na Catedral “Reinha Rosari”, situada no bairro “Postoh”, bairro este fundado pelos portugueses em 1613, aquando da invasão dos Holandeses à Fortaleza dominicana de Solor, dá-se o início à famosa procissão, que se tornou célebre em toda a Indonésia, desde a década dos anos 60 do século XX. Desde o século XVIII, que esta procissão é organizada pela “Konfreria Reinha Rosari”. A procissão percorre uma distância de 5 quilómetros, e nela participam cada ano entre 50 a 60 mil fiéis, todos vestidos de preto, em sinal de luto. Duas relíquias são transportadas nesta procissão: a imagem da “Mater Dolorosa” e o pequeno caixão do “Tuan Meninu”. A imagem da Virgem é levada ao ombro pelas senhoras da Confraria. O caixão é transportado por quatro homens, denominados “Lakademu” (representam Nicodemos…). Estes vestem a túnica branca, tendo a cara tapada e trazendo na cabeça um capuz vermelho. Segundo a tradição, estes quatro homens são aqueles que no ano anterior tinham feito uma promessa especial á “Mater Dolorosa” e agora cumprem-na levando o caixão durante cinco horas de viagem. A procissão pára diante de cada “Armida” (ermida). Aí uma cantora (representando Verónica) entoa um canto lúgubre, convidando os peregrinos ao arrependimento: “O vos omnes, qui transitis… attendite et videte si est dolor sicut dolor meus”; e, enquanto canta, mostra à multidão um pano branco com o rosto de Cristo ensanguentado. E o coro dos homens, membros da Confraria, todos trajados de opas brancas, responde em uníssono: “Seignor Deo, Miseri Cordia…” Durante o percurso o grupo de senhoras não cessa de cantar: “1. Werjen mai de deo wale aino; 2.Werjen mai de deo ajuda aino;3. Werjen mai de deo, spende aino; 4.Werjen mai de deo, soscure aino; 5.Werjen mai de deo lirwa aino; 6.Wergen mai de deo remedia aino; 7.Werjen mai de deo, ampara aino; 8.Werjen mai de deo, consula aino; 9. Werjen mai de deo gia aino; 10.Werjen mai de deo, salwa aino, 11.Werjen salwirana senyo oria; 12.Seja nosa entre senso ria; 13.Deo nosa junte na gloria; 14.Dos para enso Amen Yesu (traduzido para Português: 1. Virgem, Mãe de Deus, valei-nos; 2. Virgem, Mãe de Deus, ajudai-nos; 3. Virgem, Mãe de Deus, defendei-nos; 4. Virgem, Mãe de Deus, socorrei-nos; 5. Virgem, Mãe de Deus, livrai-nos; 6. Virgem, Mãe de Deus, remediai-nos; 7. Virgem, Mãe de Deus, amparai-nos; 8. Virgem, Mãe de Deus, consolai-nos; 9. Virgem, Mãe de Deus, guiai-nos; 10. Virgem, Mãe de Deus, salvai-nos; 11. Virgem, Salve, Rainha e Senhora, 12. Seja nossa Intercessora; Deus nos junte na Glória; 14. Do Paraíso, Amen, Jesus!)
Ao longo dos séculos XVII, XVIII, e na primeira metade do século XIX, não havia um único missionário residente na Ilha de Flores. Pois a Confraria da Nossa Senhora do Rosário foi a única organização que procurou preservar a religião católica naquelas ilhas. Quando, em 1860, o padre holandês Jan Piter N. Sanders, foi enviado pelo Vigário Apostólico de Batávia (Jacarta) para visitar núcleos de cristãos perdidos nas ilhas do oriente de Jawa (daí a palavra Timur), encontrou, para surpresa sua, senhoras que rezavam e cantavam em Português… e tinham por Padroeira, a Senhora do Rosário. Oxalá, a herança deixada pelos frades Dominicanos portugueses continue a perdurar e que a grande procissão da Sexta-feira Santa ajude os Peregrinos de Larantuka a viverem em profundidade a Páscoa de Jesus!
Mogofores, 11 de Março de 2008
