A Semana

O grande ataque à política do Governo, nos últimos tempos, não foi, como se esperava, o discurso de Ferro Rodrigues na “rentrée” do PS. Aí, o líder socialista limitou-se a posicionar-se ao nível de Paulo Portas e do PP, esquecendo-se de que o alvo do PS, como maior partido da oposição, teria de ser o PSD e Durão Barroso.

Quem, no entanto, se encarregou de atacar desassombrada e inesperadamente o Governo foi a própria ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, num encontro de empresários e trabalhadores sociais-democratas. Ao considerar que a sua proposta de congelamento de admissões de funcionários na Administração Pública foi “a medida mais estúpida” que tomou, a ministra confirmou que nem sempre o Governo aposta nas decisões mais acertadas. Uma decisão estúpida nunca será de seguir, a nosso ver, custe o que custar.

Ferreira Leite não se ficou por aqui, avançando mesmo com a denúncia da incapacidade governativa em evitar que 57 por cento das empresas portuguesas fujam ao Fisco. E logo apontou o dedo ao Estado, acusando-o de ser “o grande culpado” desta situação. Ainda acrescentou que o Governo “não pode andar atrás dos trabalhadores por conta de outrem, porque esses não fogem aos impostos; quem foge aos impostos são os trabalhadores por conta própria e as empresas”. Se é assim, por que motivo não age o seu Ministério, em conjugação com outros, contra os faltosos?

O paradoxo disto tudo está no facto de o Governo e o seu partido terem ficado calados. Se fosse a oposição a dizer o mesmo, aqui-d’el-rei que nunca resolveram os problemas enquanto estiveram a governar. Mas, afinal, Manuela Ferreira Leite também ainda não conseguiu acabar com este cancro da nossa sociedade.

Diz-se, talvez com muita razão, que somos um povo que gosta de improvisar. Programar, planear e organizar não será muito connosco. Mas a executar, a trabalhar no terreno, parece que somos bons. Não se diz que, no estrangeiro, os portugueses são dos melhores trabalhadores que há?

Terminados os incêndios de Verão que devastaram Portugal, quase de lés a lés, deixando na miséria muita gente, não faltam promessas de livros brancos sobre a catástrofe para se apurarem as causas. Mas também já se diz que a nova floresta portuguesa tem de ser bem ordenada, para que não volte a acontecer tragédia semelhante.

Durante os incêndios florestais, não faltaram técnicos que apontaram erros, ditaram sentenças e avançaram propostas científicas que há muito andam pelos livros, pelas universidades e pelos gabinetes dos políticos. Urge, pois, pegar nisso tudo, com urgência, planificar e saltar para o terreno, para que uma das maiores manchas florestais da Europa seja reposta, restituindo à nossa paisagem o verde que a caracterizava. Mas quanto antes, não vá dar-se o caso, tão ao nosso estilo, de no Verão de 2004 tudo continuar marcado pela cinza.