A Árvore de Zaqueu Não é fácil «ser sentinela» («estar de sentinela» é uma expressão menos dura, pois lembra o carácter provisório da função). Ao desconforto físico e à frequente solidão junta-se a pesada responsabilidade pelo que pode acontecer e o medo de ameaças ocultas.
E a nenhuma sentinela militar seria permitido «pôr o espírito em sentinela», com as lufadas frescas de um livro de poemas sobre «a arte de ser sentinela».
A sentinela não pode fixar o olhar num só ponto, pois arrisca-se a uma espécie de alucinações e aumento de angústia. Por isso, o seu olhar vai varrendo o horizonte com a maior calma possível, para que nada lhe escape, sem perturbar a capacidade de atenção. Mantém a esperança de ser ajudada e em breve substituída – quem sabe se por um amigo… Mas nunca deixa de avaliar cuidadosamente quem quer que se aproxime.
As leituras deste domingo lembram que é bom e vantajoso «ser sentinela» – que saiba «ler poemas» e meditar em palavras amigas.
O Livro de Isaías é rico em poemas de esperança – num salvador que nos guie pelos bons caminhos, sem nos abandonar quando somos imprudentes. Também são poemas de admiração por um Deus que parece ausente, justamente quando mais sofremos, quando a situação política leva os melhores a desanimar.
Mas o amigo veio, diz o poema. Corre ao encontro daqueles que não sabem por onde ir – as encruzilhadas são ardilosas e os que deslizam para os trilhos do deserto correm o risco de ser como árvores moribundas deixando cair as folhas no solo árido. (Será porque preferem viver perdidos? Por ignorância ou porque é mais cómodo ser ignorante? Ou receiam travar amizade com esse amigo misterioso? A verdade é que a sentinela tem sempre algum medo de quem vem…).
A passagem do evangelho como a da carta de S. Paulo reflectem as ideias naturalmente confusas sobre a relação de Jesus com os conceitos de «Filho do homem», «Filho de Deus» e textos apocalípticos (a literatura apocalíptica tinha muita influência na época de Jesus Cristo). Por isso se fala da nova vinda de Cristo, como salvador e juiz. De facto, ambas as leituras indiciam a crença de que «o fim do mundo» (quer dizer, a realização perfeita, e portanto final, do «reino de Deus») está para muito breve, talvez no espaço de uma geração. Porém, os próprios textos do Novo Testamento vão esclarecendo, ao longo do tempo, que a «vinda de Cristo» não tem um tempo marcado: é o encontro com ele, nas mais diversas situações da vida.
Jesus revelou que Deus vem ao nosso encontro de braços aberto como um pai (Lucas 15,20-24) – que também ele está de sentinela à espera de muitos encontros e do encontro festivo em que não há relógios para avisar da hora da separação.
Revelou que vale a pena viver, pesem os problemas e angústias da vida. Porque afinal de contas nunca estamos sós – basta não ter medo de ser encontrado.
Tudo no mundo pode ser um poema da «arte de ser sentinela»: os espantos do universo e da maravilha do ser humano; os nossos amores e desilusões; os nossos prazeres e desgraças… Não nos podemos é fixar num só ponto, como a sentinela, para que possamos ajuizar com bom senso sobre tudo o que se passa à nossa volta. E assim fazendo aquilo de que mais gostamos ou que tem que ser feito – estamos sempre vigilantes.
«Quem vem lá?» – é o grito tradicional da sentinela. Alguém que nos causa problemas? Ou um amigo e um aliado?
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
