Vítor Sérgio Ferreira considera que foi uma “agradável surpresa” verificar que as condutas de risco (sinistralidade, consumo de tabaco, álcool e drogas duras) estão a diminuir ou a estabilizar entre os jovens. O investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa apresentou, no Centro Universitário Fé e Cultura, em Aveiro, as grandes conclusões do relatório que coordenou. “A condição juvenil portuguesa na viragem do milénio” é um estudo inédito que revela a evolução dos jovens entre 1991 e 2004, em campos como a educação, a família, o emprego ou a justiça.
Contra a “cultura do achismo”
O estudo teve por base a análise de dados estatísticos sobre os jovens dos 15 aos 29 anos. É uma análise científica, contra a “cultura do achismo”: “Eu acho que os jovens…” Incide nos jovens entre os 15 e os 19 anos, entre o fim da escolaridade obrigatória e limite mínimo para a inserção na vida activa e o limite máximo de entrada na vida adulta, através do casamento e da profissão. O estudo está publicado em livro e poder ser consulado na Internet em: http://www.sejd.gov.pt (clicar em “A Condição Juvenil Portugue-sa”).
Dilatou-se a condição juvenil
Os processos de entrada na vida adulta são mais diversos e prolongam-se no tempo. Os jovens passam mais tempo em processos escolares e formativos. Em 1990, a taxa de frequência do ensino superior era de 16%. Em 2001 essa taxa subiu para 27%. No período do estudo, 58% dos jovens concluíam a escolaridade obrigatória. Na viragem do milénio, a percentagem era de 89%. É uma tendência clara: os jovens saem de casa cada vez mais tarde. As raparigas estudam mais do que os rapazes. Devido ao desemprego, há uma estratégia de prolongamento da formação através de pós-graduações, mestrados ou doutoramentos.
Casam-se mais tarde
Ao longo do período abarcado pelo estudo sociológico, os jovens passaram a casar, em média, dois anos mais tarde. Em 2004 a idade média com que os jovens se casam é de 28,6 anos, no sexo masculino, e de 26,9 no sexo feminino. Em 1990, o primeiro filho nascia aos 24,7 anos da mãe. Em 2004 nasce os 27,5.
Menos jovens
A juventude é uma categoria demograficamente cada vez menos frequentada. Antes, a população portuguesa era composta por um quarto de jovens. Agora são um quinto.
Mais divórcios
O casamento é uma opção colocada cada vez mais tarde. Mas o divórcio surge cada vez mais cedo. Antes, o divórcio surgia entre os 5º e o 9º ano de casamento. Agora, surge entre o 1º e o 4º ano. O divórcio não significa que os jovens não acreditem na instituição casamento. Privilegiam antes a qualidade da relação. Se não tem a qualidade desejada, passa-se para outra relação. Valoriza-se mais a questão dos afectos.
Principal causa de morte
A sinistralidade rodoviária é a principal causa de morte entre os jovens do sexo masculino; contudo, nota-se uma tendência para a diminuição.
Aumento de criminalidade
A criminalidade aumentou 15% entre os jovens. Trata-se principalmente de crimes contra o património. Duplicou o número de arguidos jovens. Metade da população prisional portuguesa são jovens.
Independência/Dependência
Há uma singular relação de independência/dependência dos jovens em relação aos pais. Por um lado, têm em casa um espaço cada vez mais privado – o quarto – e é-lhes dado o automóvel como símbolo de independência. Mas, quando o carro avaria ou acontece um acidente, é ao pai que se telefona em primeiro lugar para resolver o problema.
Universidade não significa autonomia
Ao contrário de outros tempos, a ida para a universidade não significa autonomia do jovem. Os pais acompanham os filhos nas matrículas e nos primeiros dias de aulas – impensável há duas décadas. A Queima das Fitas [ou Bênção dos Finalistas] é vivida em família, como o baptismo ou o casamento.
Participação social
Ao contrário da ideia dominante, os jovens não estão menos participativos. Antes do 25 de Abril, a participação era maior, mas apenas entre as elites, que eram uma minoria. Agora a participação tem outras dimensões e modalidades (vejam-se as manifestações convocadas por mensagens de telemóvel). A participação eleitoral aumenta claramente com a inserção do jovem no mundo laboral.
Dificuldades maiores
Vivem-se tempos de incerteza e contingência. A sociedade glorifica a juventude, mas os jovens têm de se confrontar com um horizonte muito difuso e diluído. Não há emprego. Ou, se há, já se sabe que não é para toda a vida. A capacidade de fazer projectos a longo prazo diminui. Os valores juvenis são experimentalistas: viver a vida melhor, no momento; cultura lúdica e mediática. É difícil ter outra estratégia, quando o horizonte é tão incerto.
Modelos nórdicos
Nos países nórdicos, os jovens saem mais cedo de casa e começam a trabalhar ao mesmo tempo que continuam os estudos. Trabalham num café e alugam uma casa (normalmente com subsídio estatal), que partilham com alguém.
Experiências como a de trabalho em “part-time”, de associativismo ou de participação numa ONG são muito valorizadas no currículo. Contribuem para a responsabilização.
Em Portugal, este tipo de experiências não é valorizado, nem pelas famílias (que acham que pode prejudicar os estudos ou transmitir uma imagem de falta de apoio ao seu filho), nem pelos professores, nem, em geral, pelos empregadores.
Próxima sessão do Fórum::Universal
7 de Fevereiro, às 21h, no CUFC
“Estórias da Ria, Cidade e caracterização de Aveiro”
Com Élio Maia e Mons. João Gaspar
Moderação: Teresa Fidélis
