A solidão!

O rumo terá de ser outro! Morre-se na solidão, porque a solidão mata. Vive-se na solidão, porque a falta de humanismo esvazia o ser humano do respeito por si próprio e pelos demais.

As notícias destes dias não podem deixar indiferentes governantes, instituições, comunidades cristãs, autarquias, famílias, e todas as pessoas que estimam a vida como direito primordial do ser humano.

Nascidos como seres em relação e para a relação, nós só podemos sentir-nos realizados numa vida de múltiplas relações. E relações personalizadas, isto é, com pessoas, de vista, de ouvido, de proximidade. Quando todo esse tecido de relações se esvai, fica-se atrás de uma porta, enclausurado entre quatro paredes, tolhido pelas escadas a vencer… e morre-se na mais terrível solidão, a da impotência para procurar relações.

Também nesta invencível necessidade se espelha a nossa imagem e semelhança de Deus. A relação tem um sabor a divino. E molda-nos os sentimentos, ordena-nos as prioridades, estica-nos o tempo disponível, alarga o coração e elimina barreiras, para nos situarmos no tecido da família e da vizinhança, do prédio, da rua, do bairro, do lugar…

Nas trevas brilha sempre uma luz. Vale o que vale; mas é um lampejo de esperança e uma iniciativa que pode suscitar outras. E tem a marca de juventude que se preocupa com os idosos. É assim que a acolho com alegria e me deixo inquietar por ela, procurando equacionar o que possa suscitar de criatividade na realidade em que vivo.

Vem das terras do interior. Os jovens – um certo número de jovens – decidiram “apadrinhar”, cada um, dois idosos. Com o compromisso de os visitar, de lhes dedicar periodicamente algum tempo, de lhes prestar algum serviço necessário, de lhes proporcionar mesmo alguma forma de lazer.

Espero que seja uma iniciativa gratificante, para quem dá e para quem recebe. Que seja um pequeno grão de mostarda a suscitar multiplicação de humanismo até ao infinito, escola de uma educação diferente dos ideais do mercantilismo e do vício tecnológico, acima dos castings que fabricam ídolos com pés de barro ou dos desejos de entrar no “Guines Book”.

O homem pretende, muitas vezes, escorraçar Deus da sua vida, coloca-se frente a Ele como inimigo a abater. Mas dá voltas e voltas e não encontra sentido para a vida, nem modo feliz de a viver, senão acolhendo-se na Sua luz e dela bebendo a inspiração para os seus pensamentos e as suas atitudes, que constroem uma sociedade onde se ama a vida e, por isso, se não morre de solidão.