Apresentado livro sobre Casa Major Pessoa Aveiro não é a “Capital da Arte Nova” em Portugal. Há muitas fachadas, mas poucos interiores segundo o estilo Arte Nova.
“É disparatado dizer que Aveiro é capital da Arte Nova em Portugal”, afirmou Manuel Ferreira Rodrigues, antigo vereador da Cultura da Câmara Municipal de Aveiro, na apresentação do livro “O mistério da casa Major Pessoa”, da autoria de Mário Sarabando Dias, editado pela autarquia aveirense.
Para este investigador e historiador aveirense, a Casa Major Pessoa, como é conhecida a casa situada no Rossio, que pertenceu a Mário Belmonte Pessoa, e que está a ser recuperada pela Câmara Municipal de Aveiro para acolher o futuro Museu Arte Nova, “é a única casa arte nova existente em Aveiro”, porque em Aveiro não há uma verdadeira arquitectura Arte Nova, mas simplesmente cenografia de fachadas decoradas com motivos Arte Nova, em que o resto desses edifícios são “normais”.
Também o autor do livro e arquitecto responsável pelo projecto de recuperação da Casa Major Pessoa manifestou idêntica opinião, ao dizer que, nas casas designadas por Arte Nova existentes em Aveiro, “os projectos não seguem os princípios Arte Nova”, mas são projectos de arquitectura popular “onde foram metidas a martelo” influências das revistas de arte e de decoração dessa época.
Tanto Manuel Ferreira Rodrigues como Mário Sarabando Dias são de opinião de que a origem da casa de Mário Belmonte Pessoa “não se encontra em Aveiro, mas numa grande cidade”, como referiu o primeiro, enquanto o segundo recordou que o “Major” Pessoa, que era farmacêutico e não militar, enriqueceu com o negócio do café e do cacau em S. Tomé e Príncipe, e que repartiu a sua vida entre esse arquipélago, as cidades do Porto e de Paris e ainda a Suíça, lembrando a origem suíça de Korrodi, provavelmente o autor do projecto inicial da casa.
Património em degradação
Manuel Ferreira Rodrigues afirmou que “Aveiro tem duzentos anos de tradição de destruição do património, desde a abertura da barra”, quando parte significativa das muralhas de Aveiro foi derrubada, para que as suas pedras fossem usadas nos molhes da barra.
Por isso, lembrou que “a arquitectura modernista é muito mais rica, em Aveiro, do que a Arte Nova”, e que “a continuar esta destruição, algum dia ninguém vem a Aveiro, porque não há nada para se ver nesta cidade”.
O antigo vereador da Cultura reconheceu que “Aveiro não tem um arquivo municipal”, e apesar do empenho que pôs na criação dessa estrutura, não conseguiu concretizar esse sonho, pelo que pediu ao vereador actual, Miguel Capão Filipe, que também estava na mesa de apresentação do livro, lutasse pela criação de um arquivo dos projectos de obras, de modo a facilitar o trabalho aos investigadores. A estes, pediu que, “depois da Arte Nova, venham os livros sobre os edifícios dos anos 40, 50 e 60”.
Na mesma linha de pensamento, Mário Sarabando Dias realçou que “já pouco resta da arquitectura popular na cidade” e, que “dos edifícios antigos, já ninguém fala”.
Livro é um marco em Aveiro
Manuel Ferreira Rodrigues e Miguel Capão Filipe reconheceram a relevante importância do livro “O mistério da Casa Major Pessoa” e do seu autor, Mário Sarabando Dias, para a historiografia do património arquitectónico aveirense.
Com pouco mais de cem páginas, o livro faz todo o historial possível da evolução do edifício, desde a sua origem até ao tempo presente, incluindo a fase de recuperação e adaptação às suas novas funções museológicas, com enfoque especial no período inicial, anterior a 1910, no qual ocorreu o acrescento do andar intermédio, facto que ainda hoje é um “mistério”.
A par disso, o autor tenta desvendar um pouco a vida e obra de Mário Belmonte Pessoa e da sua esposa, Elisiária Augusta Sequeira Pinto, a qual teria desempenhado um papel muito importante na concepção inicial da casa.
O livro apresenta cerca de uma centena e meia de fotografias, incluindo algumas bastante antigas, mesmo do período inicial da casa, nomeadamente datadas de 1907. A par das fotos, são apresentados inúmeros desenhos e projectos.
