LIVRO Para o cristão, trabalhar não é apenas ganhar o sustento com o suor do rosto. É, nem mais nem menos, colaborar com Deus, Ele mesmo o primeiro trabalhador, o Divino Oleiro, o Criador. Daí que a cultura judaico-cristã visse com bons olhos o trabalho braçal, ao contrário da cultura greco-romana. Para esta, o trabalho físico devia ser desempenhado pela multidão de escravos, restando aos homens livres actividades como pensar, discutir, elaborar leis, negociar, mas não meter as mãos na massa, ou no barro (como Deus, ao criar o ser humano). Daí que, também, não ter trabalho seja ficar privado de um sentido fundamental da existência humana, de relacionamento social e de uma dimensão espiritual, para além da perda de sustento. Como dizia Freud, trabalhar e amar são as actividades que mais humanos nos tornam.
A introdução vai longa, mas faz todo o sentido nestas notas sobre uma obra dedicada a criadores. O próprio autor avisa que, “visto que somos todos feitos à imagem e semelhança de Deus, existe criatividade em todos nós e o único problema é como expressá-la. Um agricultor é criativo – ninguém mais do que ele – e um sapateiro também”.
A referência a Deus, no primeiro capítulo, repetidas vezes, não é por acaso. O reputado historiador (e colunista de publicações como o “Spectator”, o “Daily Telegraph” ou a “Forbes”) Paul Johnson é um católico cujo testemunho e palavras são apreciados em Inglaterra. (O relato do seu percurso espiritual foi um “best-seller”. Há uma versão em espanhol: “La Búsqueda de Dios. Un peregrinaje personal”, ed. Planeta).
Nesta obra, a segunda parte de uma trilogia (depois de “Intelectuais” e antes de “Heróis”), o autor detém-se sobre 16 criadores, que mostraram com os seus esforços que “a criação é uma coisa maravilhosa”. “(…) As pessoas que criam ao mais alto nível levam uma vida privilegiada, por mais árdua e difícil que possa ser”.
Os 16 criadores eleitos são: Chaucer (poeta inglês, séc. XIV), Durer (pintor alemão, séc. XVI), Shakespeare (dramaturgo inglês, séc. XVII), Bach (músico alemão, séc. XVIII), Turner (pintor inglês, séc. XIX), Hokusai (pintor japonês, séc. XIX), Jane Austen (romancista inglesa, séc. XIX), Pugin (arquitecto inglês, séc. XIX), Villet-Le-Duc (arquitecto francês, séc. XIX), Victor Hugo (escritor francês, séc. XIX), Mark Twain (escritor norte-americano, séc. XIX), L. C. Tiffany (artista vidreiro, norte-americano, séc. XX), T.S. Eliot (poeta anglo-americano, séc. XX), Balenciaga (costureiro espanhol, séc. XX), Dior (costureiro francês, séc. XX), Picasso (pintor espanhol, séc. XX), e Walt Disney (desenhador e realizador de filmes de animação norte-americano, séc. XX).
Cada um destes ensaios é uma ode à criatividade humana. Lêem-se com muito gosto. Óptimos para elevar qualquer cultura geral.
J.P.F.
Criadores
Paul Johnson
Aletheia Editores
388 páginas
