Pensar a Paróquia A situação da mulher está a alterar-se profundamente no mundo ocidental. Do silêncio dos lares ao bulício das profissões e dos ambientes de lazer. Da cultura de submissão à tomada de consciência de auto-afirmação, ao estilo assertivo de vida em atitudes e comportamentos. Da dependência da natureza fisiológica à valorização do corpo e ao controle dos seus ritmos biológicos. Da complementaridade masculina à reciprocidade do género. Da humilde prestadora de tarefas à liderança de movimentos e instituições. Do “sexo piedoso” ao questionamento das razões da fé, da interpretação dos textos sagrados e litúrgicos, do exercício da autoridade na Igreja, do acesso ao ministério ordenado.
Hoje, tudo aponta para uma consciência nova, que se expressa de modo plural e configura um tipo de mulher progressivamente consciente de si e da sua dignidade, capaz de ir “desenhando” a sua feminilidade de mil maneiras, exibindo a outra face do rosto do ser humano, da sociedade de iguais e diferentes, da Igreja em que as mulheres têm uma parte de responsabilidade e uma participação igual à dos homens (Sínodo 1971).
A paróquia constitui um óptimo mostruário das fases desta evolução. Na cidade e no campo. Nas áreas pastorais mais diversas. Nas circunstâncias mais contrastantes. Nas várias fases etárias de todo o itinerário vital humano. Com ritmos e acentuações diferentes. A policromia das fases salienta a complexidade interpelante da situação.
A vida paroquial revela um rosto predominantemente feminino: na diaconia do serviço humilde e discreto em todas as suas tonalidades, no apostolado espontâneo e organizado em redes de solidariedade, no acompanhamento a quem sofre perdas familiares e precisa de apoio para “fazer o luto”, no cultivo da proximidade cooperante, nas catequeses e preparações sacramentais, na conservação e arranjo dos templos, na participação e animação das celebrações litúrgicas e dos grupos de oração, na relação de ajuda que busca sentido para o que vai acontecendo. A predominância, apesar de estar suavizada, é ainda tão grande que, se as mulheres fizessem greve, muitas paróquias teriam que encerrar “por falta de pessoal”.
A presença da mulher na vida e missão da Igreja é tema que diz respeito a todos os cristãos, designadamente aos responsáveis das comunidades eclesiais. Não se trata apenas de funcionalidade organizativa ou de eficácia apostólica. Está também “em jogo” a compreensão antropológica da pessoa humana, do rosto de Deus que nela se espelha, da Igreja enquanto sacramento de Jesus Cristo e da sua credibilidade na sociedade em que a paridade e a reciprocidade tendem a implantar-se e a fomentar um novo estilo de relacionamento. Também na paróquia, a instituição eclesial deve ser instituição-mensagem, capaz de realizar o que anuncia, de transmitir o que vive, de testemunhar o que a anima.
A maioria das mulheres cristãs actua nas “bases” da Igreja. A extensão do seu serviço a outros âmbitos tem-se revelado muito lenta e cautelosa. Frequentemente surgem sinais de medo da “concorrência” e de perplexidade perante o rumo a seguir. Onde se caminha e progride na abertura a novas responsabilidades, há colaboradoras em organismos eclesiais em todos os níveis: da paróquia, do arciprestado, da diocese, da Santa Sé. Também se vão afirmando como líderes eleitas em grupos, movimentos, comunidades eclesiais de base, associações de orientadores da família, organismos internacionais.
É já frequente encontrar a sua presença em órgãos de aconselhamento e de discernimento, ainda que seja em cotas mínimas. Muito mais rara é sua participação em instâncias de reflexão que se pronunciam sobre o sentido das orientações a tomar ou em que o seu parecer é assumido com valor decisório. Apesar de minoritária, esta presença alenta a esperança de quem deseja construir uma paróquia renovada e inclusiva, a partir dos dons do Espírito e da premência dos sinais dos tempos. Oxalá que, em relação às mulheres, a Igreja, por incúria, inércia ou medo de implementar as reformas indispensáveis, não venha a encontrar-se com situações parecidas com as que vive(u) noutras áreas humanas, designadamente a dos operários/proletários, dos investigadores cientistas, dos criadores de cultura, dos agentes políticos e económicos.
A paróquia está vocacionada para ser, por excelência, o espaço do reconhecimento da mulher por si mesma e não por uma questão de moda ou de arranjo artificial. Com efeito, é composta de famílias que, normalmente, se fazem presentes por meio da mãe. Confia-lhe a maior parte das tarefas ou serviços estáveis. Conta com ela, de forma especial, na rede geral de comunicação e informação à vizinhança e a outros residentes. Acompanha e, por vezes, promove a sua valorização e formação. Ausculta nos grupos e assembleias o seu sentir e modo de ver as questões. Apercebe-se da escala de valores que orienta a sua vida e vai transmitindo em sociedade.
Dispõe assim de indicadores consistentes para fazer algumas verificações que, tidas em conta, podem definir novos rumos à relação “de forças” entre os membros da comunidade paroquial e efectivar o reconhecimento desejado.
Este reconhecimento não acontece por acaso. Exige disponibilidade ao Espírito, sentido de Igreja, atenção aos desafios emergentes em muitas situações, aceitação de que a renovação pretendida inclui necessariamente muitos aspectos da alteração em curso, esforço abnegado e paciência histórica das mulheres, empenho de toda a comunidade paroquial.
Em linguagem metafórica, a paróquia, à maneira da ave em pleno voo, encontra o equilíbrio e o rumo da sua renovação valorando as suas duas asas: o homem e a mulher, membros por igual da nossa comum humanidade.
