Afinal, o que é besta do Apocalipse com o número 666?

Perguntas & Respostas*

* Secção da responsabilidade do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro – www.iscra.pt) «Aqui é preciso discernimento! Quem é inteligente calcule o número da besta, pois é um número de homem: o seu número é 666!» (Ap 13,18).

O discernimento e a inteligência são necessários não apenas para fazer este cálculo mas também e essencialmente para procurar situar-nos na verdadeira dimensão e alcance de cada livro da Bíblia, quer do Antigo Testamento, quer do Novo Testamento. No caso do Apocalipse requer-se muito maior atenção, dado o seu estilo marcadamente simbólico.

Um dado indispensável é ter presente que o autor do Apocalipse está a falar da história concreta dos finais do séc. I e nas suas repercussões nas diversas comunidades cristãs. Aliás, toda a literatura de género literário apocalíptico é sempre uma leitura dos acontecimentos históricos à luz da Palavra de Deus. Exprime uma visão própria do real, da história, da antropologia, da ética, da ciência. O pessimismo para com o mundo presente, dominado pelo mal, é consequência dum dualismo geral entre bem e mal, anjos e demónios, história e escatologia, matéria e espírito, oprimidos e opressores, céu e terra, presente e futuro. Assim o entenderam todas as propostas de solução do 666 desde o séc. II até aos nossos dias, vendo neste número e na besta uma alusão a Roma.

Dizer que o número 666 é «um número de homem» é o mesmo que afirmar que ele se refere não ao elemento satânico, mas ao histórico-mundano da besta do mar.

Com a primeira besta, vinda do mar, o autor do livro procura já representar o Império Romano. À segunda Besta, surgida da terra, o texto refere-se como «o falso profeta», que está ao serviço da primeira Besta, ou seja, do Império Romano. Todos os habitantes da terra são seduzidos pela Besta. Aqueles que não adoram a primeira Besta são os cristãos, que não obedeciam ao mandato do culto imperial, que implicava adorar o Divus Caesar (= divino César) e a Dea Roma (= deusa Roma).

Compreendendo que a primeira Besta é o Império Romano, fica fácil entender que a segunda Besta é o símbolo apocalíptico dum ministro de Roma e que era alguém que possuía autoridade. Podemos pensar, pois, que se trata dum imperador. Um imperador que tinha a missão de assegurar a extensão territorial do Império, fazendo «com que a terra e seus habitantes adorem a primeira Besta».

Nos últimos tempos, a interpretação do número tem, pois, passado duma alusão genérica ao império romano ou ao seu carácter antirreligioso, como defendia S. Irineu, à tentativa de encontrar os nomes de quase todos os imperadores romanos do séc. I (Calígula, Tito, Domiciano, Nerva e, sobretudo, Nero), recorrendo à guematria ou numerologia judaica, que é o método hermenêutico de análise das palavras bíblicas somente em hebraico, atribuindo um valor numérico definido a cada letra.

Para totalizar 666, há uma grande quantidade de combinações. A base de onde deve se partir este cálculo é o facto de que em grego e hebraico as letras do alfabeto têm valor numérico, já que estas línguas careciam de numerais. A opinião mais aceite entre os exegetas é que João está referir-se a Nero, já que o seu nome em hebraico é NERWN QAISAR (Nero César). Devemos recordar que na língua hebraica não se escrevem vogais entre as consoantes. Assim, NRWN QSR – N (50) R (200) W (6) N (50) – Q (100) S (60) R (200) dá a soma de 666.

O número 6 é um número usado para representar a imperfeição, por vir logo atrás do 7, que significa a plenitude. O facto de ser repetido três vezes é significativo, pois o 3 é símbolo da perfeição. Repetir 3 vezes um adjetivo equivale ao máximo superlativo possível: é o caso de «Santo, Santo, Santo» referido a Deus. Portanto, repetindo três vezes o 6 – 666 – significa três vezes imperfeito, totalmente imperfeito, o contrário de 3 vezes Santo.

Júlio Franclim Pacheco