As águas turvas são o clima mais propício para gerar e enraizar a desconfiança, o caminho impossível da recuperação da esperança. As meias verdades são a expressão pública mais notória dessas águas turvas. Próprio das elites é classificar essa conveniência de “confusão” de “politicamente correcto” ou incorrecto.
“Levantam-se lebres” e logo se fazem desmentidos, com documentos na mão! Apresentam-se relatórios e logo se fazem interpretações políticas minimizantes, de sinais contrários. Denunciam-se redes – de pedofilia, de tráfico de influências, de corrupção desportiva… – e logo se multiplicam procedimentos e contra-procedimentos judiciais, com vista a arrastar indefinidamente processos…
E o grande público ou se alheia, mergulhando numa incurável indiferença ou desconfiança, ou toma partido mais levado por paixão clubística, política, de simpatia pessoal, de conveniência…, assumindo a facção que toma como a radicalmente verdadeira, rejeitando em absoluto qualquer aproximação da opinião contrária, para não correr o risco de encontrar alguma parcela de verdade que ponha em causa a sua esclha.
Muito me tem lembrado a estrofe do poeta popular: “P’rà mentira ser fecunda / e atingir profundidade, / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade!”. É mesmo isso: mistura-se algo de verdade com um chorrilho de mentiras e inverdades, tempera-se o rigor da verdade com a conveniência… e resulta essa “calda bordalesa”, espessa e turva, onde só navega quem tem o “escafandro” da cor ou do grupo certo.
Estamos assim, neste país de brandos costumes. Mente-se e desmente-se!… E, depois, onde poderemos encontrar a certeza de que se procura o bem comum, mesmo com o sacrifício dos cidadãos? Não estaremos a ser conduzidos, de forma subtil, mascarada de autenticidade e de entrega sacrificada à causa pública, a um beco sem saída, onde o poder se converta em tirania, com uma estrutura de poder avassaladora, da qual só heroicamente nos libertaremos?
Mesmo quem sabe nadar, dificilmente se orienta e resiste em meio de águas turvas e revoltas. Quem não sabe, outra atitude lhe não resta que não seja ater-se à sua crença e esperar que, milagrosamente, seja atirado para algum rochedo ocasional que lhe dê pé ou depositado numa margem firme de onde possa procurar rumo. Mas é certo que um país não pode andar ao sabor de mixordeiros, que turvam e agitam as águas da vida nacional, sejam eles quem forem!
