(DISPOSIÇÃO N.º0) – “Estamos cansados de ouvir esse Sermão da Montanha, mas é bom que, de vez em quando, o coloquemos nessas grandes linhas da cultura e da história. Jesus viveu há dois mil anos. Antes dele, Aristóteles e Buda fizeram a mesma pergunta: “Como seremos nós felizes?” Depois deles, Jesus também fez a mesma pergunta. Três grandes homens da história da cultura: Aristóteles, da cultura grega; Buda, de todo o Oriente, e Jesus, o nosso Salvador” (J. B. Libânio, S. J.).
(DISPOSIÇÃO N.º1) – “A felicidade está sempre onde a colocamos, mas nunca a colocamos onde estamos”. Esse é um paradoxo. Outro paradoxo da nossa condição humana é sempre procurar pela felicidade fora de nós mesmos. E quando a encontramos, a empurramos um pouco mais para continuar a busca. Confundimos Felicidade com Satisfação. A satisfação é transitória e vem de fora para dentro – das coisas agindo sobre nós – como um período de férias, carro ou telemóvel novos, um programa de carnaval, uma roupa, etc… Mas a felicidade é melhor do que a satisfação porque vem de dentro. Vem da alma interior, da chama interna, do amor doado, da generosidade sem medida. Aí reside em parte a diferença entre viver e ter uma vida. Temos uma vida, mas podemos viver várias vidas. A felicidade é o que mais desejamos. A felicidade lá do fundo até à superfície da pele, no brilho dos olhos. Ela vem da Graça e é simples; só precisamos ser honestos connosco. Ah, se eu soubesse… Não mudaria nada ou mudaria tudo?
(DISPOSIÇÃO N.º1.1.) – No estilo inconfundível, lemos em Eduardo Galeano as contra-indicações das verdadeiras “POBREZAS”:
“Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm tempo para perder tempo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não tem silêncio e nem podem comprá-lo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm pernas que se esqueceram de andar, como as asas das galinhas, que se esqueceram de voar.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que comem lixo e pagam por ele como se fosse comida.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm o direito de respirar merda, como se fosse ar, sem pagar nada por ela.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm liberdade senão para escolher entre um e outro canal de televisão.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que vivem dramas passionais com as máquinas.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que sempre são muitos e sempre estão sós.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não sabem que são pobres”.
(DISPOSIÇÃO N.º1.2.) – Vale a projecção visionária e laica de Jacques Attali, no seu dicionário do século XXI, no verbete “CONSUMIDOR”:
“Inseparável do produtor. Co-produzirá os produtos e as experiências que consumir. Sempre que o mercado se impuser, todos os comportamentos se alinharão pelo consumidor, preocupado apenas com o seu próprio interesse. O cidadão rico não aceitará mais submeter-se à decisão de uma maioria pobre. O doente rico não aceitará mais sacrificar-se às exigências da solidariedade. O apaixonado não aceitará mais seguir os caminhos da sedução. O mundo inteiro tornar-se-á, para o consumidor solvente, um supermercado aberto a todos os seus caprichos. Um dia, muito mais tarde, o consumidor, libertado da ascendência do mercado, poderá voltar a ser um cidadão doente ou apaixonado feliz com suas contradições finalmente recuperadas e assumidas”.
(DISPOSIÇÃO – FINAL E HISTÓRIA)
Diante de Aristóteles, a Felicidade é “virtude como justa medida”; diante de Buda que se pergunta sobre a fonte da nossa infelicidade e responde que a causa são os Desejos. Desejamos demais. Desejamos quase tudo e, a cada não, uma decepção, uma enorme frustração. Finalmente, veio Jesus e fala das Bem-Aventuranças e na versão de Lucas, acrescenta o famoso “Ai de vós”… a maldição duma felicidade a todo o custo, o-sem-preço, a vida sem regras, a amoralidade generalizada… Em que ficamos… por isso, num mundo RICO, não podemos esquecer das POBREZAS (até melhor seria das misérias…), elas não são invisíveis. Jesus é realista, isso é encarnação. Num mundo de terapia à força para conquis-tar a Felicidade, não esqueçamos que não somos ‘doentes’, ou consumidores, ou cidadãos; somos tudo isso, mas seremos muito mais: Pessoas com o Dever de sermos Felizes! Sempre insatisfeitas, mas nunca azedas ou ressentidas!
Diz a história do náufrago [simpatias a Umberto Eco], ao nadar vários dias foi parar numa praia, exausto dormiu. No dia seguinte, ao procurar comida, faminto, viu um jabuti na forquilha de um galho de árvore e pensou: “jabuti não sobe em galho de árvore, coitado, vou tirá-lo de lá”. Subiu na árvore e, ao pegar o jabuti com muita pena, recebeu uma flechada nas costas e morreu.
Moral da história: Se na sua vida existem “jabutis”, não mexa neles, ‘alguém’ os colocou lá, deixe-os quietos, siga em frente. Conquiste primeiro o Espaço; o Caminho vem na decorrência.
Referências fundamentais:
(1) AAVV, Ah, Se Eu Soubesse… Brasil – Org. Richard Edler e Marcio Moreira, Negócio Editora,2001; (2) ATTALI, Jacques, Dicionário do século XXI, Editora Record, 2001;(3) LIBÂNIO, J.B. (S.J.), Um Outro Olhar: Coletânea de Homilias, Volume III, BIG Editora Gráfica, s.d.; (4) GALEANO, Eduardo, De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, L&PM Pocket, 2009.
Nota final: “Perguntam-me qual ataque inesperado, neste Ano Sacerdotal: O que é um padre feliz? A)”Humano demais” (P.e Fábio de Melo); B)“Requiem” (Mozart); C)”I’ve Been High” (R.E.M.) – Pedro José.
