O espanto não poderá deixar os portugueses senão de boca aberta, de ombro a ombro, tal é o desmantelamento de tudo o que possa estruturar uma personalidade com perfil de ser humano. Sim, porque aquilo que se vai tecendo, no edifício jurídico, na opinião pública, no projecto educativo…, tende a reconduzir a pessoa humana a uma condição de ser inferior aos próprios animais.
A incerteza na atribuição de responsabilidade criminal, a relativização de qualquer espécie de vínculo interpessoal, a pulverização da verdade objectiva no “que eu penso, o que eu sinto, o que me apetece”, tudo isto conduzirá, muito rapidamente, a uma forma de vida instintiva, com a agravante de, paradoxalmente, ser programada.
Não se trata de defender “velhas obrigações”, princípios conservadores, paradigmas obscurantistas. Trata-se de encontrar, sistematizar, educar em valores civilizacionais que mantenham um perfil de pessoa humana digna desse nome, a única que pode garantir uma coexistência, cooperação e harmonia social estáveis – garantias de democracia autêntica.
Se hoje se perspectiva mais fácil despedir o marido ou a esposa do que um assalariado, se não tardará muito a que se se seja penalizado mais fortemente por atropelar um animal do que por ferir o íntimo ou a honra das pessoas, às vezes as do mesmo sangue, que nasceram de nossa responsabilidade ou que nos deram o ser, que é que poderá garantir a primazia da pessoa humana e o respeito pelos seus direitos fundamentais?
Os céus plúmbeos dos nossos dias, carregados de ameaças de instabilidade e violência, fartos de fenómenos de escravidão e exclusão, não são irreversíveis. A menos que o homem (sobretudo os homens “sábios”, do nosso como de outros países) persista em se tornar cada vez mais lobo do homem – e que nos perdoem o lobos, porque terão, porventura, algumas regras instintivas que nós já teremos ultrapassado.
O caminho da esperança, o desanuviamento do futuro, passa por recuperar da falência do conhecimento em que nos deixámos arrastar, do ambiente abúlico em que nos deixámos adormecer. Sentimentos, sensações, emoções são potencial explosivo do nosso ser humano. Configurados por um recto e profundo exercício da inteligência, por um persistente e esforçado norte da vontade, serão caminho de reconstrução de um verdadeiro tecido de relações respeitadoras, afectuosas e solidárias, pressuposto radical de uma sólida paz social.
O caminho desta educação não é fácil. Todavia, é o único que dignifica – porque é a sua expressão genuína – o perfil originário da pessoa humana. Ainda é tempo de inverter ou corrigir percursos destruidores.
