Ainda uma vez a educação…

Um acontecimento desta envergadura não é inócuo. Reconheçam-no ou não os “mandantes da educação”, publicitem-no ou ignorem-no os órgãos de comunicação social, a apresentação pública de um novo programa de educação (E) moral (M) e religiosa (R) católica (C) – EMRC – é um marco na história da educação em Portugal. E mais ainda quando cerca de oitocentos professores da área curricular disciplinar participam no Fórum dessa apresentação.

Sabemos que um mundo de governação hostil nos rodeia, baseado em preconceitos estrábicos, que uma onda de apatia envolve muitas famílias, muitos encarregados de educação. Não é isso que nos vai privar de continuar a exigir aquilo que um vasto edifício jurídico institui e regula, respondendo a direitos fundamentais da pessoa e da família.

Sabemos que uma atmosfera de fluidez de crença e de rarefacção de pertença relativiza o edifício ético de muitas consciências e convida uma relativização e intimismo do religioso e do católico. Não é isso que nos trava a convicção de que temos obrigação de apresentar e oferecer às pessoas e à sociedade um desenho matricial cultural de inspiração evangélica.

Mais: estamos convictos de que o mundo, que nos repudia muitas vezes, sente profundamente a nossa omissão e ausência, se porventura cedemos à tentação de voltar as costas, deixando de lhe ofertar critérios para construir e saborear a vida de verdade. Em face de tanta poluição e necrose moral, as ânsias mais profundas da humanidade pressentem e desejam a frescura e o poder terapêutico dos valores evangélicos.

É nessa certeza que os responsáveis da educação cristã se continuam a desdobrar, para oferecer ao mundo educativo – às pessoas em educação, às comunidades educativas, à sociedade – esse contributo indispensável que é a educação para o transcendente e a grelha de hermenêutica do sentido da vida, da pessoa, do cosmos, da relação social, de matriz evangélica.

É isso o ensino religioso escolar católico: um saber, construído com o rigor dos outros saberes, embora alargando o horizonte da ciência para além das fronteiras do estreitamente racional, a inserir-se no conjunto desses saberes que plasmam o lastro cultural de pessoas e grupos, matizando-o dos valores evangélicos. Não é um fanático proselitismo religioso. É uma proposta provocadora, que apoie a consistência dos que são discípulos e interrogue e/ou ilumine a procura honesta dos que o não são.

Valeu a pena um trabalho tão exigente. As competências propostas no novo programa são um valioso contributo à educação para uma cidadania integral e activa, um espírito cultural crítico, uma visão cristã das realidades em que nos movemos, um comportamento de inspiração evangélica, mesmo que não confessional.