A Rede Europeia Anti-Pobreza de Portugal (REAPN) olha com pessimismo para o pedido de ajuda externa já oficializado pelo Governo, defendendo que este não terá, a curto prazo, efeitos práticos junto de quem mais precisa.
“Esta solução vai resolver a crise dos bancos e das empresas, mas dificilmente terá benefícios diretos para os mais débeis” aponta o padre Agostinho Moreira, presidente daquela organização católica, em declarações prestadas à Agência Ecclesia na quinta-feira passada.
Para o líder da REAPN/Portugal, o pedido de assistência financeira que o governo dirigiu à Comissão Europeia revela uma “visão apenas economicista e de um capitalismo liberal” e denuncia um “sistema perverso”, que “não é digno de uma sociedade que diz ter políticas sociais para o cidadão”.
O verdadeiro problema, segundo o sacerdote, está numa nação que “conta hoje com cerca de dois milhões de pobres”, situação que, até agora, apenas tem merecido o “silêncio culpável de muita gente”, aponta.
Segundo Manuela Silva, antiga presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, “as consequências deste pedido de ajuda externa dependem muito das condições que vierem a ser negociadas pelo Governo”.
A especialista defende, no entanto, que “o momento atual convoca a sociedade civil a reforçar todos os esquemas de solidariedade e a permitir desenvolver mais um setor de economia voltado mais para as necessidades das pessoas”.
Manuela Silva sempre se manifestou contra a vinda de ajuda externa para o país, por entender que “havia outros recursos internos e externos que poderiam ter sido mobilizados para evitar a derrapagem das contas públicas”.
Um desses recursos, para a economista, passaria desde logo pela “profunda reestruturação do setor administrativo do Estado”, onde a opção por parcerias publico-privadas, por exemplo, “não tem correspondido satisfatoriamente a critérios de transparência, de eficiência e de controlo dos gastos”. Esta opinião é partilhada pelo padre José Maia, para quem Portugal caiu nesta situação depois de “muitos anos de esbanjamento”.
O presidente da Associação Filos considera por isso que este é o momento certo para “reorientar o futuro” e fundamentalmente “recuperar de uma desvalorização crescente do bem comum”.
São várias as associações locais que têm vindo a investir na criação de projetos solidários, no apoio aos mais desfavorecidos, estimulando uma relação de proximidade e de “boa vizinhança”, na resolução de problemas.
Um exemplo que, no entender do padre José Maia, também poderia ser seguido pelos responsáveis políticos “Acho incompreensível que o Governo não aposte na reabilitação urbana como um setor estratégico para criar emprego e favorecer o desenvolvimento” exemplifica o sacerdote, que teme sobretudo pelo “futuro das novas gerações”.
Em Faro, o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social disse que a Igreja vai continuar “no terreno”, para “ajudar os mais pobres e os que estão mais aflitos”.
“Começámos a preparar-nos para isso porque tínhamos os olhos no país real”, disse D. Carlos Azevedo, a respeito das dificuldades que o país pode vir a enfrentar. O prelado falava à margem do congresso da Rota das Catedrais, que decorreu na capital algarvia, onde proferiu a conferência inaugural.
Trabalhadores cristãos defendem
maior aposta na «economia social»
A Liga Operária Católica (LOC/MTC) assinalou que Portugal precisa de “apostar mais na economia social e solidária”, se quiser escapar à situação difícil que está a atravessar.
“Esta economia tem sido capaz de gerar emprego e desenvolvimento local, criado e mantido o tecido económico em muitas comunidades, antecipando a solução de futuros problemas sociais” realça o movimento de trabalhadores cristãos, num comunicado enviado às redacções.
No seguimento de uma série de quatro ações de formação, em que abordou as principais dificuldades que afetam o mundo laboral – desemprego e precariedade – a LOC/MTC tece várias criticas a uma sociedade fragmentada, a nível social, político, geográfico e ambiental, que desvaloriza o “ser” e o “estar” em função do “ter” e do “haver”.
“O desemprego, a precariedade laboral, as desigualdades salariais e sociais, a competitividade, os horários de trabalho desadequados às necessidades das famílias são hoje as causas para muitas doenças psíquicas e para o aumento da pobreza e da exclusão”, alerta o movimento católico.
Na “radiografia” traçada pela organização, o endividamento, o consumo de bens sem necessidade, o individualismo, a falta de esperança e a desconfiança face ao modelo político, são algumas das principais “fraturas” encontradas. “Há alternativa a este modelo de desenvolvimento”, sublinha a LOC, para quem a chave do sucesso poderá estar numa “atitude mais proactiva dos cidadãos” e nas mais-valias decorrentes do associativismo.
Os trabalhadores cristãos acreditam que “o século XXI pode vir a ser o século das organizações sociais”, especialmente aquelas “sem fins lucrativos”, que com “liderança, competência e capacidade de gestão determinarão fortemente os valores, a visão, a coesão e a atuação da sociedade”.
