Alberto Hurtado, patrono dos trabalhadores

Luis Alberto Hurtado Cruchaga nasceu em 1901, filho de Alberto Hurtado Larraín e Ana Cruchaga Tocornal. Teve um irmão, Miguel, dois anos mais novo. A sua família vivia com algum desafogo em em Viña del Mar. Com a morte do pai, em 1905, a família vendeu as terras e mudou-se para Santiago, capital do Chile.

Em 1909, entrou no Colégio Santo Inácio. As dificuldades económicas não impediram que, com a sua mãe, trabalhasse pelos mais pobres, no Patronato Santo António. Em 1918, começou a estudar Direito na Universidade Católica do Chile, envolvendo-se intensamente na vida universitária. Une a sua própria carreira à sua inquietude por servir, organizando, com alguns estudantes de Direito, um consultório jurídico para operários e dedicando a sua tese de licenciatura à procura de soluções jurídicas para alguns problemas sociais.

Durante uma crise dos nitratos, organiza os seus companheiros de curso para auxiliar os operários que vieram para Santiago e que estavam instalados em pensões muito precárias. Além disso, participa no Círculo de Estudos Leão XIII, onde era lida a encíclica “Rerum Novarum” e outros documentos sociais da Igreja.

Depois do serviço militar e da formatura em advocacia, Alberto Hurtado entrou para o noviciado dos jesuítas, escrevendo a um amigo: “Por fim aqui estou como jesuíta, feliz e contente como não se pode ser mais nesta terra: transbordo de alegria e não me canso de agradecer a Nosso Senhor porque me trouxe a este verdadeiro paraíso, onde a gente pode dedicar-se a Ele 24 horas do dia. Tu podes compreender o meu estado de ânimo nestes dias, dizendo-te que quase chorei de gozo”.

Entre os anos de 1927 e 1931, estuda filosofia e teologia em Sarriá, Espanha. Pela situação política da Espanha, os jesuítas tiram do país os seus estudantes estrangeiros. E Alberto deve continuar os estudos na afamada Universidade Católica de Lovaina.

Depois da ordenação, em 1933, e concluída a formação em Teologia e o doutoramento em Ciências Pedagógicas, regressa ao Chile, em 1936, para trabalhar entre os jovens do Colégio Santo Inácio e da Universidade Católica. Em 1941 foi nomeado assistente da Acção Católica Juvenil. No mesmo ano lança um livro que questiona o catolicismo do Chile. Quando já era assistente nacional da Acção Católica juvenil, surgem divergências com um dos bispos, o que o leva a pedir a demissão do cargo em Novembro de 1944.

Um lar para Cristo

No mês anterior à sua renúncia, como relata, numa noite fria e chuvosa, aproxima-se dele “um pobre homem com uma amigdalite aguda, tiritando, em mangas de camisa, que não tinha onde amparar-se”. A sua miséria impressiona-o. Poucos dias depois, a 15 de Outubro, dando um retiro a senhoras, na Casa do Apostolado Popular, fala, sem tal ter previsto, sobre a miséria que existe em Santiago e a necessidade da caridade: «Cristo vaga pelas nossas ruas na pessoa de tantos pobres, doentes, desalojados do seu mísero cortiço. Cristo, encarquilhado debaixo das pontes, na pessoa de tantos meninos que não têm a quem chamar ‘pai’, que carecem há muitos anos do beijo da mãe sobre a sua testa… Cristo não tem lar! Não queremos dar-lho nós, os que temos a dita de ter um lar confortável, comida abundante, meios para educar e assegurar o porvir dos filhos? ‘O que fizerdes ao mais pequeninos dos meus irmãos, a mim o fareis, disse Jesus». E assim nasce o Lar de Cristo. À saída do retiro, recebe as primeiras doações – um terreno, vários cheques e jóias – por parte das senhoras presentes.

Em Maio de 1945, o Arcebispo de Santiago, Mons. José Maria Caro, benze a primeira sede do Lar de Cristo. No ano seguinte, inaugura-se a Hospedaria da rua Chorrillos. Pouco a pouco, o Lar de Cristo cresce até níveis admiráveis, prestando um inestimável serviço aos mais pobres e criando uma corrente de solidariedade que actualmente superou as fronteiras do Chile. A sua finalidade não consiste apenas em dar alojamento: «Uma das primeiras qualidades que se deve devolver aos nossos indigentes é a consciência do seu valor de pessoas, da sua dignidade de cidadãos, mais ainda, de filhos de Deus».

Promoção da sindicalização

No dia 13 de Junho de 1947, dia do Sagrado Coração de Jesus, com um grupo de universitários, constitui a Acção Sindical e Económica Chilena (ASICH), como forma de procurar «a maneira de realizar um trabalho que tornasse presente a Igreja no terreno do trabalho organizado».

Após uma longa viagem à Europa, onde pôde ficar a par do movimento social cristão, que dominava os círculos católicos progressistas, funda no Chile a revista “Mensage”. O Pe. Hurtado queria a publicação de «uma revista que voasse» com a finalidade de dar formação religiosa, social e filosófica, para “orientar e ser o testemunho da presença da Igreja no mundo contemporâneo”. O primeiro número saiu em 1951. No editorial explica que o nome alude «à Mensagem que o Filho de Deus trouxe do céu para a terra e cujas ressonâncias a nossa revista deseja prolongar e aplicar à nossa pátria chilena e aos nossos atormentados tempos».

Alberto Hurtado morreu no dia 18 de agosto de 1952. A sua morte repercutiu em toda a sociedade chilena. A poetisa Gabriela Mistral escreveu: «Durma quem muito trabalhou. Não durmamos nós, não, como grandes devedores fugazes que não volvem a cara para o que nos rodeia, nos cinge e nos urge quase como um grito…»

Jorge Pires Ferreira

Estas notas baseiam-se na extensa biografia que surge no sítio da Fundação Padre Hurtado (www.padrealbertohurtado.cl).

Principais datas de Alberto Hurtado

22-01-1901 – Nasce em Viña del Mar, Chile

14-08-1923 – Entra no noviciado dos jesuítas

24-08-1933 – É ordenado padre em Lovaina, Bélgica

1945 –Funda “El Hogar de Cristo ”, o Lar de Cristo

13-06-1047 – Cria a Acção Sindical e Económica Chilena (ASICH)

18-08-1952 – Morre em Santiago do Chile, de doença incurável

16-10-1994 – Beatificação, em Roma, por João Paulo II

23-10-2005 – Canonização, em Roma, por Bento XVI

Cristo vaga pelas nossas ruas na pessoa de tantos pobres, doentes, desalojados do seu mísero cortiço. Cristo, encarquilhado debaixo das pontes, na pessoa de tantos meninos que não têm a quem chamar “pai”, que carecem há muitos anos do beijo da mãe sobre a sua testa… Cristo não tem lar!

P.e Aberto Hurtado