Alianças alternativas

Questões Sociais As alianças e hostilidades traiçoeiras, afloradas no artigo anterior, deveriam ser substituídas por outras, positivas, marcadas pelo humanismo e pela justiça. Em vez da palavra «aliança», poderemos utilizar qualquer outra, menos forte, como por exemplo «cooperação», «entendimento», «convergência». A inexistência de alianças alternativas das «traiçoeiras» salda-se pelo agravamento permanente da desumanidade e das desigualdades sociais.

Uma primeira aliança necessária é a que envolveria os consumidores, os trabalhadores (todos eles também são consumidores) e as empresas menos competitivas. Sem prejuízo do esforço individual de cada uma destas entidades, incumbem especiais responsabilidades às associações de consumidores, aos sindicatos e às organizações representativas daquelas empresas. A cooperação recomendável não consiste, evidententemente, na defesa exclusiva do próprio interesse individual ou de grupo – como se daí resultasse automaticamente o bem de todos – mas sim na compatibilização de todos os interesses, com base em valores comuns.

Uma outra aliança respeita a estes três conjuntos de entidades, de um lado, e aos grandes grupos económicos e à investigação científica, do outro. Esta aliança parece espúria, mas configura-se indispensável para se obter a eficácia necessária e para que, gradualmente, sejam neutralizadas as alianças e hostilidades traiçoeiras referidas no artigo anterior. Naturalmente, isto só se conseguirá com base no respeito da legalidade e de princípios éticos fundamentais, que vêm sendo consubstanciados, em parte, na «responsabilidade social das empresas». Há quem entenda que os grandes grupos económicos deveriam ser eliminados ou, então, muito controlados; tal posição esquece que eles existiram sempre, embora com designações diferentes, mesmo fora da economia de mercado, e que dispõem de uma enorme capacidade de sobrevivência. Além disso, não se encontra provado que sejam intrinsecamente maus e, por outro lado, quanto mais extemista fôr a oposição contra eles mais tendem para o seu próprio extremismo, que chega, não raro, à imersão na economia subterrânea, extremamente perigosa, à margem da legalidade e da ética.

Uma terceira aliança – tão indispensável como as duas anteriores – é a que envolve os cinco tipos de entidades acabados de mencionar e vários outros marcadas pelos objectivos do humanisno e da justiça, como é o caso do terceiro sector (mutualismo, ccooperativisno, instituições particulares de solidariedade social e outras associações e fundações sem fins lucrativos), bem como dos movimentos e instituições de «comércio justo», de democratização do conhecimento e de defesa do ambiente. Todo o quadro de alianças ficaria mais robustecido se os parceiros sociais, os partidos políticos, as confissões religiosas, os meios de comunicação social e outras entidades com responsabilidades sociais lhe dessem o seu concurso específico.

Enquanto não se sistemazar o esforço de alianças positivas, formais ou informais, o nosso destino colectivo continuará nas mãos do mercado sem regulação e de tendências ainda mais funestas.