Alianças e hostilidades traiçoeiras

Questões Sociais A forte competitividade económica, interna e externa, deu origem ao aparecimento de alianças e hostilidades que estão a marcar fortemente as tendências económicas e sociais. Não se trata de alianças nem de hostilidades formalizadas; tal facto, porém, não lhes retira força, bem pelo contrário, uma vez que tudo resulta de convergências de interesses mais eficazes do que as decisões formais.

Uma das alianças é a que se observa entre os grandes grupos económicos e os consumidores. Tais grupos procuram manter preços relativamente baixos nalguns produtos, e são pressionados pela concorrência e pelos consumidores para os baixarem cada vez mais, ou aumentarem menos. Em ordem à consecução deste objectivo, dispõem de um terceiro aliado de peso – o conhecimento, que resulta da investigação científica e tecnológica e que é aproveitado na inovação económica. Os consumidores desejam preços baixos e alta qualidade, os grupos económicos respondem-lhes com mais inovação, maior produtividade e, daí, com menos trabalhadores, para as mesmas produções, e salários mais baixos. Muito simplesmente, raciocina-se deste modo: – haverá tanto mais vantagens, para os grandes grupos económicos e para os consumidores, quanto menor for o número de postos de trabalho e mais baixos os salários.

Esta aliança hostiliza as empresas menos competitivas, incluindo as agrícolas, que se vêem forçadas a reduzir o número de trabalhadores ou a «fechar as portas». Hostiliza também os trabalhadores mais «dispensáveis» e que, em geral, auferem salários mais baixos. Estes trabalhadores são, aliás, duplamente prejudicados (em termos de emprego e de salários): – são prejudidados enquanto vítimas directas daquela aliança e, ao mesmo tempo, porque sofrem os efeitos que ela provoca nas empresas menos competitivas.

A situação dos trabalhadores acha-se marcada por uma contradição insanável, até agora: – na qualidade de consumidores, interessa-lhes que a competitividade baixe os preços dos diferentes bens; e, na qualidade de trabalhadores, interessa-lhes que ela não destrua os postos de trabalho nem implique baixos salários.

Existe alguma via de superação destas alianças e hostilidades? – Por ora não se conhece nenhuma, que seja minimamente satisfatória; e isto é tanto mais preocupante quanto estão em causa algumas questões nucleares relativas ao sistema económico e à própria sobrevivência da sociedade em condições dignificantes. A «aliança» de grandes empresas, dos consumidores e do conhecimento revela uma pujança impressionante. Do outro lado, pelo contrário, existem divisões entre os trabalhadores e as empresas menos competitivas; e existem mesmo divisões, dentro de cada pessoa, enquanto consumidora e enquanto trabalhadora. Alguns movimentos, como o terceiro sector («sem fins lucrativos»), o «comércio justo», a democratização do conhecimento e a defesa do ambiente ainda não atingiram a amplitude necessária nem se posicionaram claramente em termos de alianças.