Amigos fortes de Deus

Poço de Jacob – 139 Amigos fortes de Deus. Era assim que Santa Teresa de Jesus definia os grandes homens e mulheres de fé da nossa história. Também podemos incluir neles um número ilimitado de pessoas que deram a sua vida pela justiça social e pelo bem do próximo. Alguns são Prémio Nobel da paz, alguns já falecidos. Encontramo-los em todas as fases da história da humanidade. A maioria, anónimos para os homens, mas não para Deus. Gestos heroicos até na nossa aldeia os encontramos, na nossa casa, na nossa vida…

Com a estreia do maravilhoso filme português sobre Aristides de Sousa Mendes, ocorreram-me, com ele, mais duas, entre tantas figuras que tudo arriscaram para salvar os judeus, e não só, do extermínio nazista. A polaca Irene Sendler e o famoso Oskar Schindler. Os três são contemplados com centenas de artigos a seu respeito, com filmes de cinema e documentários… E os três… católicos. Não é que só tenhamos amigos fortes de Deus no catolicismo. Encontramos gente nobre nas outras religiões e seitas, nos diferentes ideais políticos, nas diferentes correntes de pensamento, artes, ciências, de diferentes raças, opções sexuais, culturas, etnias. Todo o ser humano é nobre, e é consolador saber, que, ao contrário de nós mesmos, Jesus não faz aceção de pessoas. Ele bem sabe o que vai no coração do homem, diz a Escritura.

Aristides de Sousa Mendes, português e cônsul de Portugal em França, com os seus vistos irregulares, desobedecendo a Salazar, salvou 30 mil vidas, entre eles 10 mil judeus, de uma morte certa e terrível. Arriscou a sua carreira, que perdeu, e morreu na miséria. Só foi reabilitado em 1998 pelo Estado português, apesar de ter morrido em 1954. Salvou vidas. Pediu conselho ao Senhor e a Maria. Sabia ao que se arriscava. Mas como se diz em Israel – e que pena não se lembrarem disso em relação aos palestinianos – “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”.

Se está nas nossas mãos fazer alguém feliz, estamos à espera de quê? Para muitos de nós, diz a Escritura, não chegou até ao derramamento do sangue a luta contra o pecado! Para Aristides, isso lhe foi pedido. Claro que a sua miséria também se terá devido a outras situações menos prudentes de sua vida privada, mas que foi um herói, que o digam os descendentes dos 30 mil que ele salvou e que o filme regista magistralmente.

De Oskar Schindler, que também morreu na miséria, na Alemanha, e foi sepultado em Jerusalém, todos conhecemos o seu esforço na famosa lista, que conferiu a vida a milhares de pessoas que vivem hoje, graças ao risco e às jogadas por salvar pessoas que ele incluiu na sua lista. O filme é uma obra-prima do cinema. A vida dele, uma obra-prima do Amor de Deus, ainda que também ele se tivesse deixado levar por desregramentos na sua vida privada.

Irene Sendler salvou crianças. Por causa disso, foi presa pelos nazis, torturada e condenada à morte, conseguindo fugir com a ajuda de alguém. Católica e enfermeira, escondia crianças, cujos pais estavam condenados, no gueto de Varsóvia, e que, de facto, morreram. Levava-as até em caixões como se estivessem mortas, para depois da guerra as reabilitar, entregando-as a famílias e levando-as para Israel, onde viveram as suas vidas e têm os seus descendentes. Na prisão, foi-lhe dada uma estampa do Senhor das Misericórdias de Cracóvia que ela entregou ao Papa João Paulo II quando o visitou. Quando morreu tinha mais de 90 anos e uma coroa para receber no Céu, o lugar dos “amigos fortes de Deus”.

Vitor Espadilha