Angola tem uma dívida de gratidão para com os missionários portugueses

P.e Pelágio Faz Tomás, 44 anos, ordenado há 10, depois de algum tempo na carreira militar em Angola, é pároco de Vale Maior e Ribeira de Fráguas, no arciprestado de Albergaria-a-Velha. É também assistente do Secretariado Diocesano da Animação Missionária. Nessa qualidade foi entrevistado pelo Correio do Vouga, quando se aproxima do Dia Mundial das Missões (24 de Outubro). Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – O P.e Pelágio veio de um país, Angola, que tradicionalmente era terra de missão, para Portugal, que era terra de missionários. Hoje, esses papéis estão algo invertidos. Sente-se missionário em Portugal?

P.E PELÁGIO FAZ TOMÁS – Antes de mais, sinto-me bem. Houve no início um processo de adaptação, porque são realidades muito diferentes na cultura, nos costumes, nas metodologias de trabalho, na organização administrativa das paróquias. Isto cria uma grande diferença nas formas de trabalhar. Se não se tiver um certo equilíbrio, surgem tensões constantes com a comunidade ao executar um programa ou levar para a frente um projecto pastoral.

Não é típico dos missionários adaptarem-se à realidade que encontram?

Julgo que sim. Temos de estar preparados para tudo. Mas há pessoas que têm mais facilidade para a inculturação e outras que estão mais fechadas. Pessoas mais abertas para acolher e outras que não aceitam tão bem a presença de um missionário.

Está a falar o seu caso? Sente-se mais acolhido por uns e menos por outros?

Não. Isto é geral. Todos os que estamos cá em Portugal temos conversado sobre isso nas nossas reuniões. A última foi no passado 5 de Outubro, no Porto. No geral sentimos isso, mas nós também temos de fazer um esforço para entrarmos na dinâmica e nos métodos próprios de cá.

Quantos são ao padres angolanos a trabalhar nas dioceses portuguesas?

Na reunião do Porto, estivemos oito. Mas somos mais. Há dois na diocese do Porto, dois na nossa diocese, eu e o P.e Tiago Kassoma, no arciprestado de Anadia. Viseu creio que é a diocese que tem mais, uns seis. Coimbra também tem, tal como Setúbal e Lisboa.

Disse que há pessoas fechadas aos missionários angolanos. Pergunto-lhe de outro modo: alguma vez ouviu em relação a si ou ao seu trabalho algum comentário racista?

[Pausa] Sim. Já. Ouvimos, eu e os meus colegas, mas temos de ultrapassar essas coisas. Ultrapassar para o bem. As pessoas não são propriamente culpadas por dizerem isso. Por vezes, há ignorância quanto à presença de um padre africano em Portugal. Parece que não cabe nas estruturas mentais de certas pessoas a presença de um missionário negro. O contrário é que era muito mais evidente.

Mas sem dúvida que é uma riqueza haver sensibilidade de outras igrejas na igreja diocesana…

É um factor de enriquecimento, até porque a Igreja é universal. É uma das suas características. A troca de experiências e culturas diferentes enriquece a todos. No nosso caso, bebemos muito das experiências de cá e transmitimos a nossa sensibilidade aos que estão cá.

Ainda faz sentido falar em “países de missão”? Ou hoje já todos os países são de missão?

Agora há outros desafios. Mas ainda faz sentido falar em “países de missão”. Há localidades que estão muito aquém do anúncio do Evangelho, aonde nunca chegou o primeiro anúncio. Por outro lado, temos um grande desafio cá: muitas pessoas que se afastaram há muito tempo da Igreja e que precisam de ser evangelizadas – a chamada nova evangelização.

Ainda a este propósito, quero acrescentar uma única coisa. Depois do tempo todo da missionação dos portugueses em Angola, falta mostrar o sentido da gratidão. Temos de agradecer a presença dos missionários portugueses em Angola, por vezes em tempos especialmente difíceis. Lembro-me de uma frase que está escrita na estação de metro de S. Sebastião, em Lisboa: “Os olhos da memória são melhores do que os nossos olhos”. A memória deve recordar-se dos missionários que lá estiveram. Como angolano, sinto essa gratidão. Muito fizeram em momentos difíceis. Guerra civil. Alguns lá morreram, dando bom testemunho. Construíram muito, sobretudo escolas e hospitais. Muitos dirigentes em Angola são fruto das cadeiras dos missionários.

É assistente do SDAM (Secretariado Diocesano de Animação Missionária), que tem como principal finalidade promover a dimensão missionária, despertar consciências para a missão. Como vê o trabalho deste organismo?

Nos diversos sectores que temos, como o voluntariado, a Orbis [ongd que assume diversos projectos do SDAM], a infância missionária… penso que se está a trabalhar bem. No sector do voluntariado, por exemplo, por um lado, há formação para os jovens que pretendem partir para a experiência de voluntariado missionário no exterior, por outro lado, há concretização de uma ajuda às comunidades que acolhem os jovens, ajuda que tanto é humana como material.

Como avalia a missão de alguns meses, pequena, portanto, que os jovens desenvolvem em países como Angola, Moçambique, Guiné, Brasil?

É um grande desafio. Os jovens, no início, partem com grande curiosidade. No fundo está o desejo de ser missionário, mas há uma certa curiosidade em saber o que está lá, como vão ficar, como vão viver. E há também, por vezes, um certo receio, como se não fosse possível viver no local para onde vão. Mas quando regressam vêm diferentes, cheios de experiências, com o sentimento de terem sido úteis àquele povo, principalmente na transmissão de conhecimentos. Partilham essas experiências e manifestam quase sempre o desejo de voltar. A experiência transforma-os.

O que se pode fazer para tornar uma igreja diocesana mais missionária?

Temos agora dois documentos que são muito importantes para avivar a consciência missionária. Refiro-me a “Para um rosto missionário da Igreja em Portugal” e a “Repensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal”, ambos de Junho deste ano. São instrumentos muito úteis para assumirmos a missão a nível nacional e diocesano. Temos neles o pensar dos bispos portugueses e os desafios que nos colocam. Em Setembro passado, participei nas jornadas missionárias, em Fátima. Apontou-se como prioridade criar em cada diocese um secretariado das missões. Nós já temos. O desafio concreto, para nós, é conseguir um representante para as missões em cada arciprestado. Será um elo de contacto importante. Já há nomes indicados para alguns arciprestados.

A mensagem do Papa para o Dia Mundial das Missões intitula-se “A Construção da comunhão eclesial é a chave da missão”. Como comenta?

Ao ler a carta do Santo Padre, sublinho duas coisas. Primeira, a comunhão, porque é um dos maiores exemplos de que vivemos o que Cristo nos pede. O esforço de viver em comunhão, apesar das diferenças, é um sinal de que o Reino este entre nós. Por outro lado, a carta realça o valor da Palavra de Deus na resposta de esperança aos desafios culturais. Há pessoas que procuram Cristo, por vezes sem terem consciência disso. Temos de ser sinais de esperança para essas pessoas.