Ano de conflituosidade permanente?

Questões Sociais Tudo leva a crer que este ano seja de conflituosidade permanente; greves, manifestações e outras formas de luta já tiveram lugar, e se encontram anunciadas ou em perspectiva. As forças em presença contestam as políticas salariais, o desemprego o programa do Governo, o Orçamento do Estado, o Programa de Estabilidade e Crescimento e outras orientações, particularmente as do Governo; invocam direitos, interesses e valores vários a favor das suas posições.

Além dos partidos políticos, as forças que mais se distinguem na contestação, até este momento, pertencem ao sector público: são trabalhadores que, em geral, têm uma estabilidade no emprego superior à média; e cujos níveis de remuneração variam bastante, desde muito superiores à média até aos inferiores.

Quais os destinatários de tamanha contestação? No respectivo discurso são: o Governo; o grande capital; e as empresas não cumpridoras dos seus deveres, nomeadamente dos deveres laborais. Mas, na ordem dos factos, as realidades mais visadas são: a governabilidade; os contribuintes; e as empresas mais débeis e os respectivos trabalhadores. A governabilidade é mais atingida, do que o Governo, porque a margem de manobra deste é extremamente limitada e também porque, em maior ou menor grau, todos os governos têm sido contestados sistematicamente, com maior ou menor veemência; tudo parece acontecer como se o próprio governo – este ou qualquer outro – fosse uma realidade a abater. São atingidos os contribuintes, porque terão de pagar as consequências financeiras das greves e de outras manifestações do sector público. São atingidas também as empresas mais débeis e os respectivos trabalhadores porque elas, ao contrário das mais poderosas e do grande capital, dispõem de menos condições para os aumentos salariais e para a melhoria das condições de trabalho. Além disso, não dispõem de soluções de recurso, típicas do poder económico, tais como: sofistificações para não cumprirem a lei; deslocalizações; acesso a paraísos fiscais e a outros mercados financeiros, legais ou ilegais…

Estaremos perante uma cumplicidade tácita entre as forças contestatárias e o grande capital? – É abusivo afirmá-lo; no entanto, em qualquer caso, não podemos descurar os referidos problemas em aberto respeitantes à governabilidade, à sobrecarga do contribuinte e à sobrevivência das empresas mais débeis e ao futuro dos seus trabalhadores.