Poço de Jacob – 73 Neste mês de S. José, podemos considerar um aspecto que muita gente não considera, mas que encontrei há dias no sítio da Internet “Um minuto com Maria”, que recomendo fortemente. No mundo em que vivemos, não podemos estar sozinhos em casa sem uma televisão ligada ou rádio para não nos sentirmos sós, ou com o telemóvel ligado e a Internet, ou fugindo para a rua e o café para falarmos com alguém. Há um medo de estarmos sozinhos connosco mesmos que se vai tornando doença no nosso tempo. Nos hospitais, vários doentes sofrem o horror da TV ligada junto às suas camas porque o vizinho do lado quer ver a novela.

S. José, Maria e Jesus viviam num profundo silêncio. José e Maria viviam com a Palavra que se fez carne… e que no silêncio de Deus criou o mundo. Deus é eterno silêncio, actua silenciosamente e fala no nosso silêncio. Quando tudo se cala e o barulho do caos sossega, então Deus actua. Não actua no meio de gritos… mas no silêncio, no qual a planta cresce sem darmos por ela, e o nosso corpo e o tempo e a vida passam. Na casa de Nazaré, o contacto com a Palavra era todo silêncio de contemplação, cada um mergulhado no mistério de Deus. Se não havia discussões e barulhos, também não havia palavras inúteis.

Se nós excluirmos as palavras inúteis do nosso dia-a-dia, teremos muito pouco que dizer. O nosso interior é um mundo que interage connosco no mundo. A nossa mente produz mais quando tudo se cala. A nossa alma eleva-se ao essencial, que muitas vezes está escondido aos nossos olhos. As grandes descobertas e as obras-primas da arte, da técnica e os feitos gloriosos dos homens aconteceram no retiro silencioso dos artistas. A gestação da redenção operada nos anos ocultos de Nazaré foi feita no mergulho do mais profundo silêncio em Deus. Anos ocultos de Jesus, com José e com Maria… Anos de silêncio para, na espera, realizar a salvação do mundo.

Lembro, então, aqui a Antónia. Mulher de 72 anos, cujo funeral foi no dia 12 de Março deste ano de 2011. Morreu com cancro no estômago. Na última vez que a vi, no Lar da Moita, onde se tinha refugiado para morrer, já não comia há três dias, pois o estômago não permitia ingerir senão vitaminas. As persianas estavam fechadas. O quarto escuro. Ela, ali, silenciosa, sentada na sua cadeira. Era domingo. Perguntei se ela queria algo. Só me respondeu: “Estou bem e quero ficar sozinha com o meu terço”. Rezava-o continuamente. Mulher do Minho, casara em Vila Nova de Monsarros quando veio trabalhar para o hospital de Anadia. Quando pequena, pedia esmolas, descalça… Casada, teve três filhos. O mais velho morreu pequenino, de acidente num poço. Levou-o morto em seus braços e chorou tudo o que tinha de chorar, disse ela mais tarde. Nunca mais chorou assim. O seu marido teve de ser amputado de uma perna. E morreu. Ela, viúva, vivia no campo, rezando e cantando a sua vida, que oferecia a Deus, sem queixas nem lamentos.

Quando soube do cancro, reuniu os dois filhos, já casados, e preparou-os para a sua morte. Queria estar numa capela onde houvesse o Santíssimo Sacramento e que a deixassem, morta, fechada com Ele. Queria levar o seu terço. Nenhuma flor no caixão, pois “a beleza levo-a comigo e vou ver o outro filho e o meu marido”. “Não chorem. Rezem. Sigam em frente. Rezem o terço e a sua alma que são os mistérios de Cristo”. Mal sabia ler, mas adquiriu a sabedoria dos grandes-pequenos do reino. No funeral, o filho, cristão exemplar, falou longamente de tudo isso. Terminou dizendo: Creio na Ressurreição dos mortos. E de viola na mão, diante da estátua de S. José, ao lado de sua mãe defunta, com centenas de pessoas comovidas, cantou a mensagem de José de Nazaré e de Antónia de Algeriz: “Não adores nunca ninguém mais que a Deus… Não contemples… Não escutes… Só Ele te pode saciar…”

P.e Vitor Espadilha