In Memoriam ARMOR PIRES MOTA
Jornalista. Escritor
Do epitáfio que cedo escreveu, como cedo veio a morrer (82 anos), a primeira quadra (quase) resume o que foi António Capão: “Aqui jaz um homem que foi crente; / Lutou, estudou, a todos semelhante; /Propriamente seu, nunca teve um instante, / Amou os animais, as plantas, toda a gente”.
Estudou Letras na Universidade de Coimbra, onde apresentou uma dissertação de licenciatura, de carácter linguístico e etnográfico, intitulada “A Bairrada – Estudo histórico, etnográfico e linguístico”.
Logo aqui ficou definida a área de sua especial predileção, que o havia de acompanhar a vida toda, vida ligada ao ensino (liceus da Covilhã, Figueira da Foz, Aveiro, Nampula, Moçambique, e Escola do Magistério de Aveiro) dela sobrando livros ou diversos estudos, publicados em revistas (“Labor”, “Aveiro e o seu Distrito”) e jornais da região, entre os quais o “Correio do Vouga”. Homem de paixões e de labor intenso, logrou fazer trabalhos que não envolveram apenas o território bairradino, mas também outras regiões do país. Também os usos e costumes das gentes moçambicanas o haviam de apaixonar. Realizou vários inquéritos linguísticos, etnográficos e folclóricos. Algumas crónicas neste âmbito foram publicados em diversos jornais de Moçambique, onde inicialmente não teve vida fácil, não só porque se fez acompanhar pela esposa e filhos, mas também porque foi atirado para outro liceu (mais no interior) que não constava da nomeação governamental (Lourenço Marques). Não faltou sequer a perseguição da PIDE, dada a sua proximidade e ligação com o bispo D. Manuel Vieira Pinto. Inédita, desse tempo, é a obra intitulada “Aspetos Etnográficos de Moçambique – Contribuição para o Estudo do Homem Moçambicano”.
No âmbito da toponímia, publicou “Relance Histórico-linguístico sobre a Região da Bairrada – Influências Arábicas” (Prémio Região da Bairrada, da AJEB, de que foi um dos fundadores). Nunca perdendo de vista o chão aldeão em que foi nado e criado e a região (Bairrada e Aveiro), escreveu “Relíquias de Tecelagem”, “Os Moinhos da Nossa Região”, “Roteiro Religioso do Concelho de Oliveira do Bairro”, “Memórias Históricas de São Romão de Vagos”, “Oliveira do Barro – Terra Promissora”, “Águeda – Passado e Presente” e “Breve História do meu País”, através da leitura de selos, uma das suas ternas paixões, como era a de grande colecionador de conchas de que deixou exemplares raríssimos, entre centenas. Passava horas a admirá-las, enamorado da sua contextura e fez algumas exposições para delícia de muitos.
Interessado pela leitura dos forais, através dos quais se faz a história de algumas terras, meteu mãos a esta difícil tarefa e fez publicar “Carta Foral da Vila de Frossos”, “As Cartas de Foral de Miranda do Corvo” e “Carta Foral de Oliveira do Bairro”.
Uma outra paixão – “da natura inteira, elevado amante”, como escreveu em epitáfio – foi exatamente a natureza e, esvoaçando, foram os pássaros que, espiando-os pousados nos ramos das árvores ou em seus voos, conhecia um a um pelas cores e pelo canto. Do facto sobraram-lhe estudos como “O meu país das libélulas”, onde dá guita aos pensamentos, surgindo a natureza em todo o seu fulgurante beleza ou “Aves dos nossos quintais”.
“Aqui jaz um homem que foi crente” é uma verdade que sempre assumiu de peito aberto e inteligência clara. Sempre se dedicou a muitos serviços dentro da igreja, “atuando como servidor no meio do povo de Deus e dentro das suas possibilidades”, como se definiu. De entre as múltiplas tarefas que lhe foram atribuídas pelos bispos, uma foi professor no Seminário de Santa Joana Princesa, Aveiro.
Incansável, deixou muitos trabalhos inéditos de vária ordem, uns prontos há mais tempo, outros de produção recente. O que nunca publicou em livro (apenas em jornais e não foi muita) foi a sua poesia, imensa poesia, de traço clássico, vertida normalmente em quadras e sonetos. Entre estantes de livros, ou rimas deles na secretária, ali era a sua oficina literária onde chegavam os rumores dos pássaros no jardim e a trepidação da rua, o alvoroço dos netos e bisnetos. Os livros e o estudo, por um lado, e a escrita, por outro, sempre foram a sua companhia e deleite espiritual, sem que isso significasse fugir do mundo da família e do amor paternal.
Pedagogo, escritor, filólogo, poeta, conferencista, autor de peças de teatro, jornalista, homem da cultura e cidadão atento e exemplar, atestam o valor da sua obra e as suas múltiplas atividades e honrarias nacionais: foi sócio da Sociedade Portuguesa de Antropologia, sediada do Porto, e membro da Academia Portuguesa de História.
Homens desta envergadura intelectual ficam sempre a fazer falta ao concelho e ao país.
