Poço de Jacob – 148 Este ano celebrámos o 25.º aniversário de D. António Baltazar Marcelino como Bispo de Aveiro e em Aveiro. É de momento bispo emérito, mas, durante anos foi o nosso bispo, como hoje é D. António Francisco.
Aprendi com meu diretor espiritual, D. José Rivera, cuja causa de beatificação está adiantada no Vaticano, que a um bispo não se deve só honrar efetivamente, com a colaboração que os sacerdotes lhe devem, mas também afetivamente, com o respeito, carinho e amor que lhe devemos, ainda que, aparentemente, não se nos corresponda sempre, visto que as frentes de atuação de um bispo são bem mais numerosas do que as de um sacerdote. Nem sempre nos lembramos disso na hora de querermos ser atendidos, mas também nos dizia D. José que um bispo vê mais alto e, portanto, mais longe, embora não veja sozinho. Para tal, precisa de nós e de toda a Igreja. Mas essa ideia ajudou-me sempre a esperar o momento para entender o porquê de certas atuações ou aparentes ausências. Queixar-se é humano e todos o fazemos muitas vezes, hoje mais do que nunca, ainda que sem razão verdadeira. Lembrar o passado, na nossa cultura portuguesa, muitas vezes é mais para sublinhar o mal que se fez ou o que se fez mal ou o que se deixou de fazer do que o bem que nos foi legado pelas pessoas que passaram pela nossa vida.
E, sem esperar nada em troca, permitam-me que fale de D. António Marcelino, enquanto o temos entre nós e que Deus lhe dê longa vida… Penso que as palavras póstumas e as homenagens são boas para a consciência coletiva de quem vive na terra mas pouco aproveita a quem partiu, pois, na Eternidade, este mundo deve parecer-nos uma miragem cheia de coisas inúteis, às quais demos valor desnecessário, esquecendo o essencial. Gosto de dar o beijo ou a flor e ver o sorriso ou a lágrima como recompensa, ou, simplesmente imaginar que dei alegria, ainda que não me chegue o seu eco. A D. António Marcelino eu quero dizer o quanto o admiro e lhe agradeço. Saldando o tempo que o conheci, e foi grande parte da minha vida de padre, posso dizer que admirei sempre, nesta estatura de homem alto e vigoroso, esta prontidão, por vezes impaciente para que as coisas andassem. Não é homem de estar à espera que o contratem como os jornaleiros do Evangelho, mas ele próprio se lança no trabalho da vinha às altas horas da manhã, de modo infatigável. Não convivia com a preguiça, com o deixa correr. Vi-o como que elétrico, na dianteira das frentes de batalha, dando a cara, como naquele programa das cem mulheres que nunca mais esqueço, em que, parecendo que não, ele brilhou. Vi-o a impulsionar, no rasto de D. Manuel Trindade, mas com sua especificidade, a construção da Casa Diocesana e a luta pelo Carmelo de Aveiro. Vimo-lo na rua no Congresso dos Leigos e no Sínodo Diocesano, que foram como que uma novidade nacional. Vi-o a rir com um humor ponderado de bom alentejano (nasceu na Beira Baixa e trabalhou no Alto Alentejo antes de ser bispo), vi-o aborrecido diante do erro, vi-o a chorar diante da perseguição. Vi-o paciente diante das minhas misérias, em momentos da minha vida em que os caminhos não foram os mais corretos. Sempre admirei as suas enormes mãos, cheias de elegância, e senti-o a agarrar-me quando eu me afundava, como fez Jesus com o Pedro vacilante.
Vi-o apostar em muita gente, como eu, mesmo quando, provavelmente lhe terá apetecido desistir, pois tinha mais com que se preocupar. Vi-o alvo de todos os comentários, segundo os nossos pareceres, nem sempre objetivos, pois não o ouvíamos a ele. Mas também o vi a justificar-se com humildade. Vi-o grandioso na catedral de Ourense diante de centenas de pessoas das quais mil eram da Diocese de Aveiro, e brincalhão a gozar comigo na tarde deste dia, como que a dizer que eu estava “nas minhas sete quintas”. Foi lindo aquele terço rezado com ele e D. Carlos de Ourense no santuário de Fátima daquela cidade, repleto de gente sua. Quantos momentos cada um de nós poderia registar, e ele mesmo, que superam possíveis queixas ou desagrado pelo que ficou menos bem. Quanto, mas quanto, fica por dizer! Porque se há coisa que este bispo nos deixa como legado, para além de seus lindos artigos escritos fielmente há anos no nosso jornal, é o facto de nos ter ensinado que, acima de tudo, nós homens, devemos ser, sobretudo homens.
Obrigado, D. António Marcelino! Desculpe o muito ou o pouco… Aceite o nosso abraço amigo de amizade e também de algum perdão… E creia, digo em meu nome e no de muitos, mesmo de terras polacas e de outros lugares da geografia que… nós o amamos muito!
Vitor Espadilha
