António Titó

Poço de Jacob – 126 O António, quando passa na rua, parece que não anda bem. Rosto estranho. Meio aéreo, como se estivesse dopado. Emagrecido e envelhecido. Caminha imenso. Os seus passos são ora para a Igreja, ora para a capela da sua terra. Ora para algum santuário de Maria nas imediações. Por vezes parece que anda falando sozinho. Não anda, mas deambula pelas ruas. Os seus olhos, perdidos na distância, fixos em algo que não se sabe dizer o quê ou quem é. Dá pena de ver, sobretudo quem o conheceu à frente de um produtivo e famoso restaurante da terra onde vivia. Com espírito de iniciativa, família constituída. Bem na vida, digamos assim. Mas, agora é uma sombra do que era. No entanto, não duvido que toca a santidade.

É que o António vive uma paixão incrível desde há 21 anos. E não vê remédio para esse amor que o devora dia a dia e que nem a família entende ou apoia, digo, parentes, porque família ele tem na esposa e nos dois filhos. A paixão do António chama-se Titó. Há 21 anos canceroso. Com dezoito operações. Uma vida sem ideais, pois quando os tem e se aproxima deles, tem de ir para a faca de novo. É assim desde os 14 anos. Com perna cortada. Também órgãos internos. Um sofrimento que dá dó. O Titó é o único filho homem do nosso António. A sua esposa também tem cancro. O António apanhou uma depressão e perdeu o negócio que prosperava na família. A filha ficou no desemprego. O Titó é o que se vê. Quando o António entra em casa arrastando os pés cansados, não há, naquele lar de amor e dor, gritos de alegria. Todos gemem. Carregam a cruz com fé, especialmente ele e a esposa. Mas, com que esforços para não sucumbir à revolta. Afinal, esses quatro filhos de Deus têm, cada um deles, um coração de ouro. Só amor, proporcional à dor imensa que vivem. Se não fosse esse amor que os une numa tristeza sem explicações, já teriam desistido de viver.

Os desafios são imensos. Cada dia. Cada hora. Sem tréguas. Nesta semana fez-me chorar. Veio ter comigo, bem debilitado. Queria confessar-se, pois não deixa de comungar. Desabafou que, agora que o seu menino piorava, ele tinha necessidade de passar manhãs inteiras num santuário mariano, por vezes desde as 8h da manhã até à tarde. Sem comer ou beber. Tinha que ir. Alguém lhe disse, asperamente, que já andavam a falar por estar há tanto tempo a rezar. Que se deixasse disso pois já havia gente incomodada com tanto tempo ali. Afinal, parecia mais um doente mental que um orante. Que vergonha para os ditos parentes! Mas António não desiste. “Se não posso estar num santuário, vou para outro, quase três vezes mais longe”. António já não consegue dirigir o seu carro. Vai mesmo a pé. É então que o vemos como uma sombra pelos cantos das estradas, de dia e de noite. E ele disse-me chorando: “Sabe, padre, eu vou até à casa da Mãe, e vou falando com Ela pelo caminho”. Parecia que falava sozinho, mas, afinal, era diálogo! Olhos fitos na frente, pois o rosto do querido filho o orienta. Afinal parecia olhar pedido de um pedrado, mas o seu objetivo está bem delineado.

Magro, pois come e dorme pouco. Não pode dormir enquanto o seu rapaz definha na solidão de uma doença que não se define. E vai… Caminho fora… No frio e no calor. “Tenho de salvar o meu Titó! Tenho de o salvar! Ele é tudo para mim. Meu filho, meu querido filho, que não o quero perder”. E então, disse-me, chorando, e eu também chorava e choro com ele, que chegando aos pés da Senhora, naquelas horas imensas que ali passa a bater insistentemente à porta, ele só diz: “Tu tens nos braços o Teu Divino Filho. Por favor, Mãe, carrega neles, só um pouquinho, o meu Titó”. Não há como não comover-se. O António está a dar a vida pelo seu filho. Em vez de ficar em casa, ofereceu-se como voluntario para um centro de idosos… E além disso, já que não pode curar o seu menino, reza a oração que lhe sai, fervorosa: “Tens nos teus braços o meu Titó…” E assim, louco de amor, sem sabermos como terminará a história desses dois, vemos passar a santidade à nossa porta. E não lhe prestamos caso… Afinal, todos temos com que ou quem nos preocupar. E o António ali vai vivendo o seu fado, na confiança de que há de haver um dia que aquela Mãe o ouvirá. E o seu Titó descansará nos braços da Boa Mãe. Força, António. O Amor faz milagres. E você conseguirá de Deus a paz para o seu menino!

Vitor Espadilha