José Carlos da Silva Lopes, 27 anos, é natural de Vilarinho de São Roque, lugar de Ribeira de Fráguas, no concelho de Albergaria-a-Velha. No próximo domingo, será ordenado padre. A celebração acontece na Sé de Aveiro, a partir das 16h. No dia 18, preside à Missa Nova na igreja da paróquia de Ribeira de Fráguas. Nesta entrevista, revela o seu percurso vocacional e as suas expectativas em relação ao futuro. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – A poucos dias de ser ordenado padre, quais são as suas expectativas?
JOSÉ CARLOS DA SILVA LOPES – Sinto que a ordenação será algo de novo mas principalmente a continuação de uma caminhada. Gosto de ir conhecendo as coisas aos poucos. Ser ordenado padre é algo que fui pensando, reflectindo, vendo em alguns dos meus colegas. O tempo do seminário levou-me a não querer delinear um percurso completo e fechado.
Está aberto ao que o futuro trouxer? Vai aonde o Espírito de Deus o levar?
Sim, é isso que espero fazer.
Como surgiu a sua vocação?
O grande ponto de referência é o convite que o P.e Francisco Melo [então pároco de Ribeira de Fráguas e Vale Maior; hoje pároco da Gafanha da Nazaré e da Encarnação], fez a mim e a outro acólito, no final de uma Eucaristia em Vilarinho de São Roque, para participarmos num encontro do Pré-Seminário. Certamente havia um contexto familiar anterior, mas esse momento é o que guardo como referência. Andava no 7.º ano. Entrei para o Seminário de Aveiro, com aulas no Colégio de Calvão, no 10.º ano. Depois fiz o propedêutico em Leiria e o curso superior no Seminário Maior de Coimbra.
Tive sempre o apoio da minha família, embora só lhes dissesse que ia para o seminário no dia de me matricular em Calvão. Coisas de miúdo. Certamente eles já sabiam, pois o que o P.e Francisco ia fazendo por mim e pelos outros pré-seminaristas da altura indicava o caminho que iríamos seguir. Tínhamos explicações de Português e éramos acompanhados pelo P.e Nestor [responsável do Pré-Seminário].
Num percurso vocacional são sempre importantes os apoios pessoais. Quais foram os seus?
O P.e Francisco foi de uma amizade tal e um acompanhamento tal, que muito lhe devo. Esteve sempre ao lado de muitos seminaristas. Das paróquias dele, éramos quatro. A minha família também me apoiou. O meu pai é madeireiro, ou explorador florestal, como se diz, e a minha mãe é doméstica. Devo também acentuar muito os padres dos seminários, os padres Luís Barbosa, Virgílio e Francisco Martins, de Aveiro, mas também os de Leiria e Coimbra.
Do tempo de Seminário Maior e da formação em Teologia, seis anos, o que realça?
Foi um tempo duro e bom. Se não estamos conscientes do que estamos a fazer, vale pouco. Em Coimbra, por haver cinco dioceses na mesma casa – Aveiro, Leiria-Fátima, Coimbra, Portalegre e Santiago de Cabo Verde – pude conviver com o futuro presbitério de várias dioceses. Isso ajudou a crescer de forma diferente, a ver a realidade dos outros. A igreja não é feita de um só feitio, mas de grande diversidade.
Houve áreas da Teologia que representassem mais para si?
O âmbito da Bíblia mexeu comigo. É algo que gostava de aprofundar. Também gostei de disciplinas clássicas, como o Grego, que muito me cativou desde o secundário e que é importante para o estudo da Bíblia.
Tem algum livro da Bíblia preferido?
Os Evangelhos. Livro específico não, mas houve um trabalho que fiz sobre o evangelho de S. João, a análise da traição de Judas, que me deu muito gosto. A exegese bíblica faz-me ver a importância da Bíblia na caminhada. O texto bíblico é sempre muito mais profundo do que parece à primeira vista.
Agora está a fazer um trabalho final. Em que consiste?
O trabalho final corresponde ao mestrado, segundo o Acordo de Bolonha. Estou a estudar D. João Evangelista, bispo que restaurou a Diocese de Aveiro. O que me levou a optar pelo tema foi desejar conhecer a Diocese a nível histórico. É importante em termos de caminhada, já que vou integrar este presbitério. A vida de D. João Evangelista é interessante mesmo antes de ser bispo. Desde muito cedo, houve pessoas que foram ter com ele no sentido de restaurar a Diocese. Ele era um homem ponderado e dizia que ainda não era a devida altura. Passados uns anos, disse que sim a essa proposta e entregou-se totalmente à restauração da diocese. Depois da restauração, teve uma preocupação muito grande pelo Seminário, sobre o qual escreveu a sua primeira nota pastoral. Como havia gente que provinha de três dioceses, preocupou-se muito com a união entre todas as pessoas. O primeiro sínodo diocesano deve ser visto nessa linha.
Da sua formação fez parte o trabalho pastoral enquanto seminarista. Por onde passou?
Estive um ano com o P.e Abílio, em S. Jacinto e na Torreira, um ano com o P.e Querubim, na unidade pastoral de Albergaria-a-Velha, dois anos na Pastoral Juvenil e Vocacional e na paróquia da Vera Cruz, com os padres Barnabé e Rocha. No último ano, acompanhei o Sr. Bispo.
Isso permitiu-lhe conhe-cer a Diocese toda, não?
Sim, quase toda. O facto de conhecer a Diocese é importante numa perspectiva futura. Dá-nos uma visão global. Ter andado com o D. António Francisco ajudou-me também a aproximar de vários padres. É algo a realçar.
Por falar em acompanhar, houve um dia, uma hora, melhor, em que acompanhou Bento XVI. As imagens passaram em todo o mundo. Trocou algumas palavras com o Papa?
Não, não falamos. Acompanhei-o na celebração das Vésperas do dia 12 de Maio, em Fátima.
Se o Papa tivesse falado consigo, tinha algo pensado para lhe dizer?
Não. Estava mais à espera de acolher o que me pudesse dizer sobre o sacerdócio, sobre o que espera de um padre para a Igreja. Foram momentos de algum nervosismo. Não pensava em dizer nada. Pensava mais em viver aquele momento com serenidade, estando do lado direito do sucessor de Pedro, a quem está confiada neste momento a Igreja. Procurei viver o momento em serenidade.
É ordenado com toda a disponibilidade, mas há algum trabalho pastoral que goste especialmente de fazer?
Trabalhar em paróquia é o que todos ansiámos. A mim, custa-me estar atrás de uma secretária. Penso que nesta fase é importante o trabalho do dia-a-dia de uma paróquia.
Vai ser ordenado num tempo em que a Igreja está nos meios de comunicação social pelos piores motivos. Como vê a sua entrega nesse momento presente? Tem medo ou confiança?
Confiança. Há alguns receios que eu penso que são naturais quanto mais próximo estou de tomada de decisão. Mas eu tenho confiança no futuro.
No seminário fala-se da situação da Igreja?
Sim. Falávamos da pedofilia e temos consciência de que é grave. Mas não me marca negativamente. Há alturas em que parece que é preciso deitar abaixo uma instituição. Agora, a instituição a abater é a Igreja. Quanto a mim, eu tenho é de agir correctamente, seja em que área for.
Como vê o padre e a sua missão na sociedade actual?
O padre, para além de ser aquele que administra sacramentos, tem de ser alguém próximo das pessoas. Em muitas situações, o padre é o único que está presente. Anunciar Jesus Cristo passa muito pela presença silenciosa do padre, e isso continua a ser importante nos dias de hoje. As pessoas precisam de Deus e a às vezes há um procurar sem se saber o que se que procura. Procuram Deus e Jesus Cristo por caminhos não muito explícitos.
O que considera determinante para haver o despertar vocacional num jovem?
A presença dos párocos é fundamental. Senti isso comigo, mas julgo que é assim com todos. O trabalho da Pastoral Juvenil e Vocacional é uma parte importante mas tem de ser acompanhado pelos párocos, ainda que isto possa parecer um sobrecarregar os padres de trabalhos. Noutros tempos havia aquela preocupação de cada padre deixar um sucessor. Perante tantas opções, se não houver o acompanhamento, ninguém propõe a opção sacerdotal.
Para terminar, fale-nos dos seus gostos pessoais: desporto, leituras…
O desporto, enquanto prática, tem andado muito esquecido. Quanto a clubes, vou acompanhando os jogos do Sporting. Tenho visto alguns jogos do mundial, mas só em parte. Livros, li há pouco “A criança que não queria falar ” [de Torey Hayden, na Presença], sobre o trabalho de uma professora num bairro social. Um filme que me marcou, no contexto do nosso estudo sobre o que é a relação de ajuda, foi “Patch Adams” [“O amor é contagioso”, realizado por Tom Shadyac, em 1998, com Robin Williams no principal papel]. Mostra que o bom médico não é só que sabe de medicina, mas aquele que está presente, que faz rir, que estabelece uma relação com as pessoas.
Tem algum lema ou frase que o inspire?
Para a ordenação escolhi a citação de São João em que Jesus pergunta a Pedro: “Pedro, tu amas-me?” E Pedro responde: “Senhor, sabes que gosto de ti”. A persistência do perguntar de Jesus, para mim, é um apelo ao constante sim que é preciso dizer ao longo da vida. É, no fundo, o apelo que Deus me faz, a um sim cada vez mais forte, mais radical.
