Texto O pároco chegara dias antes, vindo de Moçambique, e a diocese acolheu-o. Não conhecia ainda a paróquia. Por isso, acompanhou-me na visita aos doentes, guiados ambos por alguém da comunidade. O dia estava a esfumar-se e faltavam ainda vários doentes para visitar. Lá fomos a uma ponta da freguesia, onde vivia, numa casa modesta, um casal de idosos. Ele já amparado pelas canadianas e ela com um olhar evidente de cansaço, que não conseguia disfarçar. Pensei que eram eles os doentes a visitar e, depois de algum tempo, falei da urgência de irmos ainda ver mais alguns, pois a noite já rondava. «Mas então, o senhor bispo, não veio para ver o meu doente? Nós, são coisas da idade, o doente verdadeiro é o nosso filho.» E foi-me conduzindo para o seu quarto.
Aberta a porta, vi sentado na cama um homem, soube logo que tinha já trinta anos. Olhos parados, nenhum sinal de vida. Saudei-o, mas a mãe disse-me: «Ele não fala, nunca falou. Nada recusa, nada pede… Já nasceu assim. Tenho de lhe fazer tudo. Não reage a nada, nem ao frio, nem ao calor. Não sei quando tem fome ou quando precisa de alguma coisa… Tenho de adivinhar tudo. Nunca percebi que ele, alguma vez, me tenha conhecido.» Eu ouvia estupefacto. Como é possível? Trinta anos, não conhecer nem sequer a mãe… Nem um olhar, nem um pequeno gesto? Nada, sempre nada…
Olhei aquela mãe com uma ternura enorme, com uma admiração que nunca antes sentira. E o espírito falou por mim: «Ó, minha senhora, quero dizer-lhe que nunca vi na vida ninguém tão parecido com Deus, como a senhora.» Olhou-me, com os olhos marejados, e disse: «Eu não percebo o que o senhor bispo quer dizer com isso…» E eu expliquei-lhe, que o amor dela é como o de Deus por todos nós. Totalmente gratuito. Mesmo para aqueles que o negam, o desprezam, o dispensam, o seu amor é igual. Ama porque ele é amor. Era assim que ela amava o seu filho… Sorriu discretamente e disse: «Obrigado. O que me diz não me tira o peso da cruz, mas ajuda-me agora a levá-lo ainda com mais amor e mais coragem.»
Nada, nem ninguém, como as mães, como o amor de mãe. Quem poderá ficar insensível a tal amor, se é ele que melhor espelha o amor de Deus?
D. António Marcelino, “Pedaços de vida que geram vida” (ed. Paulinas), pág. 68-70
