A Encíclica recentemente escrita pelo Papa Bento XVI – “Caridade na Verdade” – tem sido largamente comentada. “Um texto altamente irritante … um manual para o desassossego” – como alguém escreveu. Quer isto dizer que, às vezes, estes documentos são considerados respeitáveis, mas inofensivos. Desta vez, porém, o que o Santo Padre diz toca em muitos problemas concretos e interroga a todos nós, com toda a frontalidade.
Em tempo de transições na Igreja – quando sentimos as dificuldades de quem tem de de-signar servidores para as Comunidades; em tempo de preparação de escolhas eleitorais – em que nos atemos mais a verificar se o que prometem nos trará benefícios pessoais, em vez de verificar se dão garantias de servir o bem comum…, vale a pena citar algumas linhas dessa carta, para reflexão, face a esta época concreta.
“Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretensão de que não devem nada a ninguém, a não ser a si mesmas. Considerando-se titulares só de direitos, frequen-temente deparam-se com fortes obstáculos para maturar uma res-ponsabilidade, no âmbito do desenvolvimento integral próprio e alheio. Por isso, é importante invocar uma nova reflexão que faça ver como os direitos pressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma em arbítrio”.
Nenhum de nós é uma ilha: nem pessoas, nem comunidades. O bem pessoal, ou da comunidade local, só é legítimo, se concertado com o bem dos outros. Mesmo quando haja irresponsabilidades de alguns, não podemos reivindicar benefícios para nós sem o esforço de envolver a todos na construção do bem comum. Deveres são sempre correlativos dos direitos!
A situação é mais grave, quando reclamamos o supérfluo, ou mesmo o que alimenta o vício, enquanto a muitos falta o essencial. Bento XVI di-lo com mestria: “Aparece com frequência assinalada uma relação entre a reivindicação do direito ao supérfluo, senão mesmo à transgressão e ao vício, nas sociedades opulentas, e a falta de alimento, água potável, instrução básica, cuidados sanitários elementares, em certas regiões do mundo do subdesenvolvimento e também nas periferias das grandes metrópoles. A relação está no facto de que os direitos individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes confira um sentido completo, enlouquecem e alimentam uma espiral de exigências praticamente ilimitada e sem critérios”.
Caso para nos perguntarmos como vai a nossa Caridade, neste tempo de crise, e como estamos a educar crianças e jovens para uma vida mais sóbria e solidária. Caso para nos perguntarmos se temos uma visão da Igreja verdadeiramente católica, ou apenas confinado às vistas curtas do nosso cantinho, para satisfação dos nossos interesses pessoais ou comunitários.
