Ao menos um dia de silêncio! E não era de mais

Olhos na Rua O espectáculo em cena desde a passada semana continua em palco e a fazer carreira. Tem como principais actores os políticos e os seus partidos. Na Assembleia da República, abriu-se o grande livro escrito com página inteiras de oratória eloquente, mais ou menos balofa, a fazer acusações, a proclamar desconfianças e suspeitas, insinuações e provas do descaminho. Os acusados e culpados, de um lado; os acusadores e pretensos vencedores, do outro. Ninguém a ouvir atento o dizer do outro, a ver a sua parte de razão. Mesmo que o governo caísse, não seria este, por certo, o espectáculo que o povo esperaria. Mas não é a acção política uma actividade fundamental na sociedade e a democracia a maneira de reagir a totalitarismos?

Nessa tarde e noite dentro, as mesmas discussões e acusações, a mesma surdez, o mesmo orgulho de todos quererem ter a razão toda. Fiquei a pensar comigo: e se toda esta gente entrasse em silêncio? Um dia não seria de mais para reflectir, limpar o coração e a inteligência, olhar o país que sofre, ver as ruínas de há muito provocadas, analisar o caminho andado e por andar… E, ainda, tomar consciência dos pecados próprios, por acções e omissões, porque nisto não há inocentes… E se os espectadores de toda esta comédia que pode ter virado drama, esses que somos todos nós, se recolhessem também, para considerar o seu papel em toda esta história, que depressa se tornou dolorosa e triste?

Tudo muito difícil. A sorte é de que não é proibido sonhar. Os políticos têm sempre razão, a sua razão. Já o sabemos. Os de fora, com palmadinhas e sorrisos, ditam ordens. O povo, desiludido dos políticos e angustiado pelos problemas que o tocam, passa o tempo a contar os euros que não tem. Os profissionais da política sonham com postos que rendam e honrem. Todos a ver como é que isto vai acabar.