À Luz da Palavra – XXII Domingo Comum – Ano C A liturgia da palavra deste domingo apela-nos à virtude da humildade, que é o caminho de quem se quer identificar com Jesus, estabelecendo com Ele uma relação de íntima comunhão, e de quem se submete à mesma autoridade divina, numa convergência de vontades, como Ele. No início de um novo ano pastoral, é bom recordar que sem a virtude da humildade se torna impossível a relação fraterna e um bom trabalho em equipa, como é próprio da comunidade cristã.
Na primeira leitura, o autor do livro de Ben-Sirá adverte-nos: “Humilha-te e encontrarás graça diante do Senhor”. Quanto mais importante fores, mais te deves humilhar, porque só os humildes são dignos de cantar as glórias do Senhor. A humildade é uma disposição espiritual, não congénita, mas adquirida com o auxílio da graça de Deus. Há pessoas tendencialmente mais humildes e outras mais orgulhosas. Fundamentalmente, todos somos inclinados à soberba, vício contrário à virtude da humildade. Umas vezes por defeito, outras vezes por excesso. Isto é, há pessoas que não nutrem por si próprias uma verdadeira auto-estima e, por isso, consideram-se inferiores, sem qualidades, muito vulneráveis… Ao inverso, há outras pessoas que, excedendo o amor de si próprias, consideram-se as maiores, as mais bem dotadas, as intocáveis… Porém, ambas as atitudes revelam uma grande falta de humildade.
No evangelho, o Senhor conta-nos uma parábola sobre a importância da humildade, concluindo com a frase que todos nós bem conhecemos: “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Ben-Sirá e Jesus dizem-nos que uma pessoa pode ser e considerar-se «importante», bem dotada, poderosa e ser muito humilde. A pessoa que decide ser humilde, colaborando com a ajuda que Deus lhe dá, fá-lo por motivos de ordem sobrenatural, para se identificar mais com Jesus que, ao encarnar, apesar de ser Filho de Deus, não reclamou para si próprio esse direito, antes se rebaixou, tomando a forma de escravo, como escreve Paulo aos Filipenses. É por isso que Jesus nos aconselha a que sejamos de tal modo humildes que, quando damos ou nos damos a alguém, o façamos discretamente e sem esperar retribuição. O nosso Pai do céu vê-nos e isso nos basta, porque aos seus olhos encontrámos agrado.
Na segunda leitura, o autor da carta aos Hebreus lembra-nos que a verdadeira grandeza nos vem de Deus, de quem nós nos podemos aproximar com muita confiança, através de Jesus, o mediador da nova aliança. Ao encarnar humilhou-se para nos elevar da nossa pobreza e indignidade diante de Deus e nos aproximar dele.
Maria, a Mãe de Jesus, ao proclamar o seu Magnificat, ao mesmo tempo que exalta Deus pelas maravilhas que nela realizou, confessa-se a mais pequena das suas criaturas, a humilde serva do Senhor! Reconheçamos, nós também, os dons que Deus nos concede, fazendo-os render e pondo-os ao serviço dos outros com simplicidade. É esta a humilde atitude de quem deseja ser discípulo e discípula de Jesus, à imitação de Maria.
XXII Domingo Comum: Sir 3,19-21.30-31; Sl 67 (68); Heb 12,18-19.22-24; Lc 14,1.7-14
Deolinda Serralheiro
