A conversa levou-nos para apreciarmos entregas e reservas, alegrias e desilusões, trabalhos e lazer… A sentença final foi lapidar: “Antes quero arder durante cinco anos do que fumegar durante vinte e cinco!” – rematou o colega.
Vem a propósito, neste tempo de calculismo comodista, de pesar e medir e cobrar tudo o que se faz, repetir até à exaustão este pensamento, sobretudo para aqueles a quem o Senhor diz de forma explícita: “Recebestes de graça, dai de graça”. Sem menosprezar a certeza de que o trabalhador é digno do seu salário, é fundamental redescobrir este gosto de “arder em chama viva” naquilo que se é, naquilo que se faz, na condição de discípulo de Jesus Cristo, na condição de ministério assumido no seio da Comunidade.
Sai o nosso jornal do “Correio do Vouga” pela última vez sob o pontificado de Bento XVI. É hora de lhe agradecermos o fogo que brilhou no seu ministério petrino. Independentemente de, porventura, se não estar de acordo com tudo, é inegável que ele deu todas as suas capacidades – únicas! – e deu-se, sem reservas, na condução desta Barca de Pedro, através do oceano encapelado da história dos nossos dias. Graças a Deus pelo Papa que nos deu! Graças a Bento XVI pelo vigor com que serviu a Igreja e a Humanidade!
Não foi longo o seu pontificado. Mas foi fecundo. Não foi imenso o seu magistério escrito. Mas foi marcante, conciso, clarividente, de elevada qualidade. Afrontou problemas dolorosos, dialogou frontalmente com a cultura e a ciência, sentou-se à mesa com as outras religiões, ousou interpelar políticos e sistemas… Foi chama que se consumiu depressa, mas com intensidade!
Nada mais injusto do que dizer que “desceu da cruz”. Continua a ser chama viva a humildade do silêncio e da oração, da vida oculta, por amor à Igreja, a que decidiu dedicar-se. Essa, a vida contemplativa, é outra forma de arder até ao fim. A sua permanência na cruz é exatamente a corajosa simplicidade de se recolher, submetendo-se, mais uma vez, à crítica de quem quer que seja.
Vivemos uma semana que vence seis séculos de história. Pela coragem de um Ho-mem, de um Bispo, de um Papa, que preferiu arder por um certo tempo, a fumegar eter-namente sem aquecer nem iluminar ninguém.
O Espírito o amparará neste novo serviço ao Mundo e à Igreja. O Espírito nos dará, para surpresa dos malabaristas dos cálculos e das apostas, o Papa que precisamos para a Igreja possa continuar a sulcar a história dos homens marcando-a com uma sementeira de Esperança, de Verdade, de autêntica Caridade. Assim o desejamos. Assim o esperamos!
