As árvores e o olhar

Educação e Ambiente Marta Oliveira

Mestre em Ambiente e Comunicação

Há algumas semanas, numa viagem de elétrico por Lisboa, num daqueles exemplares antigos, de estrutura em madeira, mas ainda cheios de energia e vigor, ouvi uma observação curiosa. Era noite. E, no banco da frente, uma senhora comentava com o seu companheiro de viagem a beleza das imagens diante dos nossos olhos; referia-se ao reflexo das árvores que os candeeiros de iluminação pública projetavam nas paredes. Alinhadas no passeio, ali perto de Alcântara, as árvores ganhavam uma nova vida. Afinal, para além do verde, dos ramos, da seiva e do oxigénio, à noite “transformam-se”; saem de si e oferecem-nos um espetáculo escondido, silencioso, mas nem por isso (ou talvez, por isso mesmo) menos interessante.

Muitas vezes, nas questões ambientais, o nosso olhar poderá estar pouco treinado. Ou… algo desfocado. Às vezes apenas conseguimos ver o imediato e não os reflexos.

Um exemplo: a substituição das lâmpadas antigas, incandescentes (as transparentes, de vidro, com um filamento), baratas, e que muitos nos habituámos a usar durante anos e anos. Mas porque é que agora já não podemos comprá-las como dantes? E porque é que as lâmpadas agora disponíveis no mercado (que vieram substituir as lâmpadas antigas, incendescentes) são mais caras? Afinal, “são todas lâmpadas”!

Sim, “são todas lâmpadas”. Mas a resposta está em: eficiência, tecnologia, poupança de recursos do planeta. Uma lâmpada serve para quê? Iluminar, dirão. Então e quando aproximávamos a mão de uma lâmpada de 75 watts (ou 75 “velas”, na expressão de uso corrente) que já estava ligada há uma hora, e sentíamos como irradiava tanto calor? O calor irradiado pela lâmpada é sinónimo de energia desperdiçada. E se, em casa, contarmos quantas lâmpadas temos e quantas horas estão ligadas por dia? E se pudermos substituir algumas, por outras mais eficientes?

Já agora, e de onde vem a energia eléctrica que nos permite ter iluminação em casa?

Virá de algum sítio “mágico”? Não, não se dá o caso…

E será que quem até já substituiu as lâmpadas de casa por outras mais eficientes, sabe o quanto contribui para a poupança de recursos do planeta?

Serão estas perguntas meramente provocatórias ou conseguimos, de facto, quantificar consumos e poupanças possíveis?

A resposta é: sim, conseguimos. Da mesma forma que conseguimos reunir dados de rendimentos/ despesas e gerir um orçamento familiar, é possível quantificar consumos de recursos naturais e planear/ impor poupanças.

No próximo dia 22 celebra-se o Dia da Terra. Que tal aproveitar para verificar em sua casa se existe alguma lâmpada que possa substituir? Talvez fique admirado(a) por saber que as lâmpadas actuais (chamemos-lhes “filhas”), que vieram substituir as incendescentes (“paternas”) utilizam, comparativamente, apenas 70% da energia necessária. E que há ainda outras lâmpadas, que utilizam apenas 20%? Se estes dados parecem pouco familiares, o que sente perante a possibilidade de poupar 80% dos recursos necessários para ter iluminação em casa?

Nota: Atualmente, na Europa, 14% da eletricidade utilizada é gasta em iluminação. A troca de cinco lâmpadas de consumo elevado por lâmpadas economizadoras permite evitar 1,640 Kg de CO2 (gás que contribui para o aquecimento global do planeta) e poupar cerca de 480€ por ano (dados: www.philips.pt e www.topten.pt).