As cinco “coisas” brancas

Poço de Jacob – 89 À luz de Fátima, mas também da espiritualidade católica, uma vez, num retiro para padres, o conferencista falou-nos deste tema. Talvez seja pouco abordado no dia-a-dia das nossas paróquias e pregações, com medo de se cair no devocionismo. Mas o nosso povo, nós, gostamos de devoções. Na vida social as nossas devoções chamam-se hobbies. Posso ter devoção desenfreada pelo futebol. Basta que alguns padres se reúnam e o assunto torna-se mais apaixonante que falar de teologia. Há quem tenha devoção por um cantor, um artista ou uma arte. Pela moda, pela gastronomia, pela viagem… E tudo isto é, por vezes, o que chamamos sucedâneos da religião.

Também no âmbito religioso, cada pessoa deixa-se levar pelo que mais move e comove o seu coração. Há exageros? Claro! Como em tudo. Para isso é que existe uma virtude chamada temperança. No caso das cinco chamadas “coisas brancas”, são realidades que nos apontam para Cristo. São chamadas brancas não porque o sejam, mas pelo que significam por estarem envolvidas e direccionadas para a Amizade com Deus, que chamamos Graça de Deus. Todas elas estão envolvidas por essa Graça que é Amor, o Amor que é Deus.

A primeira realidade é o Espírito Santo, que aparece simbolizado na pomba branca. O Espírito Santo é a própria Graça, é o Amor entre o Pai e o Filho. Ele é quem dá a vida pelo Baptismo e reza em nós com gemidos inefáveis. É Alguém. Não uma coisa. É pessoa divina. É Deus em nós, que actua em nós e em nós ama e cria. Amar o Espírito de Deus é viver em Deus.

A segunda realidade é a Eucaristia, branca por causa da cor da hóstia que comungamos. É o próprio Jesus Cristo em Corpo, Sangue, alma e divindade, que nos lava com o seu sangue derramado incruentamente no altar para nos tornar mais brancos que a neve, lavar as nossas túnicas baptismais e nos fazer seguidores do Cordeiro Imolado. Comungar, Adorar a Hóstia Branca, é trazer o Céu para dentro de nós e mostrá-lo com a brancura do nosso sorriso para a vida e o brilho dos nossos olhos.

A terceira realidade e Maria, branca porque cheia de graça, que em Fátima apareceu mais brilhante do que o sol, e que quando abria as mãos comunicava a luz de Deus, o Espírito do Pentecostes, criando a Nova Jerusalém, que tem como luz o Cordeiro. Fez Jacinta dizer: “Trago lume no peito”. Maria termina na Cova da Iria a etapa de Fátima, como vimos na geografia de Fátima, dizendo: “Não ofendam mais a Deus…” Ou “Fazei o que Ele vos disser”, que é o mesmo, pois Fátima e a Bíblia vivem em sintonia.

A quarta realidade é o Anjo. Apareceu três vezes em 1916. Mas temo-lo ao nosso lado, cada um com o seu Anjo da Guarda, que transporta consigo a missão de nos estimular a viver para o Céu e a construir a civilização do amor na terra. Ele entende de luta, pois também foi provado e venceu, não se deixando arrastar pelo grito desobediente de Lúcifer. Cuida de nós para que não percamos a Graça que recebemos no dia do Baptismo. Dele nos falam magistralmente, entre outros, Gema Galgani e o Padre Pio, o Magistério e a Obra dos Santos Anjos radicada em Braga e Fátima, para nosso consolo espiritual, nos padres da Santa Cruz.

E finalmente a quinta realidade é o Papa, o homem vestido de branco, que foi uma das paixões da Jacinta. O Papa que garante a unidade da Igreja representa Cristo e sucede a Pedro, não só no governo da Igreja, mas na confissão de Amor. Ouvi-lo, ler os seus discursos, hoje de tão fácil acesso, rezar por ele e com ele, é mais que moda pós-João Paulo II. É compromisso baptismal de quem quer ser Igreja plena de vida e de verdade.

Cinco pontos brancos que Fátima sublinha ao longo da sua história, que encontramos na Bíblia, e que, mais do que ser devoção, são pilares que sustentam a nossa fé e nos fazem viver de Amor.

P.e Vitor Espadilha