Perguntas e respostas sobre liturgia – 2 Na nossa liturgia, qual a finalidade das cores? Porquê e para quê as diversas cores na nossa celebração cristã?
A liturgia também joga com os elementos ópticos e, entre outros, como a luz, as vestes sagradas (paramentos), as imagens, a estética…, encontram-se as cores, que são dos mais universais e expressivos.
Em todas as culturas e na infinidade de manifestações da nossa vida de cada dia, fazemos uma “leitura simbólica” das cores: uma bandeira nacional ou a de um grupo desportivo, com as suas cores próprias, pode canalizar entusiasmos insuspeitados; o jogo de luzes e cores dos semáforos, com a sua significação de perigo, de proibição ou de trânsito livre; há cores que inspiram alegria e outras que acompanham a tristeza ou o luto; há cores agressivas e fortes e outras que actuam suavemente sobre o nosso espírito.
Quando na nossa linguagem comum, religiosa e social, aceitamos um certo simbolismo na cor (o branco, a inocência), estamos a fazer um resumo de uma série de factores que agiram de tal modo para chegar a essa linguagem. Uns são naturais (se o sangue é vermelho, o vermelho recordar-nos-á em certas circunstâncias o derramamento de sangue); outros são mais culturais, históricos e religiosos que fizeram a aproximação de uma cor a uma realidade ou atitude determinada (metaforicamente, dizemos que tem as mãos manchadas de vermelho aquele que foi condenado como criminoso, como opressor do débil…).
O branco é uma cor alegre que, de imediato, sugere a limpeza, a festa e a luz. Daí a facilidade com que as diversas culturas identificaram a cor branca com a inocência, a festa e a alegria (vestido da noiva), o começo da vida nova em Cristo (veste branca no Baptismo)…
O negro, pelo contrário, negação da cor, tem outras conotações. O negro recorda espontaneamente a escuridão, a noite, a falta de luz e, por isso, metaforicamente, significa a perdição, a desgraça, a confusão e o pecado.
A cor vermelha traz-nos à imaginação o fogo e o sangue. Portanto, o seu simbolismo pode ir no sentido da culpa (o que derrama o sangue alheio), do perigo (o “stop” do semáforo), e também do amor (a paixão que enche o coração).
O verde é a cor da vegetação mais viva, daí que esta cor tenha vários simbolismos e aproximações metafóricas: a cor do equilíbrio ecológico, da paz, da serenidade, da esperança…
Nos primeiros séculos parece que não houve qualquer preocupação em legislar sobre o uso das cores. Provavelmente o branco era o mais usado, conjugado com a solenidade do material usado. A pouco e pouco, no entanto, dadas as diversas sensibilidades culturais, começou a usar-se o vermelho para determinadas celebrações (mártires, por exemplo) ou o roxo para dias mais penitenciais, vendo-se nisso uma intenção simbólica e pedagógica.
Há testemunhos do séc. XII, em Jerusalém, e do séc. XIII, em Roma, de se pretender sistematizar estes sentidos simbólicos das cores. Mas só a partir do Concílio de Trento (séc. XVI) é que se chega a um certo código estabelecido, muito parecido com o actual, no que respeita às cores que se consideram mais litúrgicas: branco, negro, roxo, vermelho e verde.
O Missal, saído do Concílio Vaticano II, aponta para uma dupla finalidade pedagógica. Antes de mais, porque o simbolismo, mais ou menos espontâneo, das diversas cores, pode ajudar a penetrar e a sintonizar melhor com o mistério celebrado: “a diversidade das cores das vestes sagradas tem por finalidade exprimir externamente de modo mais eficaz o carácter peculiar dos mistérios da fé que se celebram”… (IGMR 345). E também a pedagogia da variedade e da dinâmica de um Ano cristão que nos vai conduzindo pelos mistérios e atitudes graduais para “o sentido progressivo da vida cristã ao longo do ano litúrgico” (IGMR 345).
Que depois de uma Quaresma em que predominou o roxo, passemos a celebrar toda a Páscoa com branco festivo, e que esta Páscoa conclua com o vermelho do Espírito no Pentecostes, tem, evidentemente, a sua pedagogia. Todos estes mistérios exprimem-se, certamente, com as leituras, as orações, os cânticos: mas também a cor pode trazer-nos a sua pedagogia.
A cor, como um dos elementos visuais mais simples e eficazes, quer ajudar-nos todos a celebrar melhor a nossa fé.
José Manuel Marques Pereira
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro
