As muitas razões para gostar de um livro

Livro “Ser cristão para quê?”

Timothy Radcliffe

Ed. Paulinas

318 páginas

Não faltam motivos para gostar de um livro como “Ser cristão para quê?”, de Timothy Radcliffe, que tanto pode ser lido isoladamente como antes ou depois de “Ir à Missa porquê?” (apresentado nestas páginas na edição de 22 de Dezembro de 2010). Podemos apontar o apuro do estilo literário. O tom bem disposto com que escreve. A capacidade de nos recordar a verdade mais simples e profunda dos Evangelhos, como quando diz que Jesus “comeu e bebeu com os de má reputação”, pelo que “a Igreja é um lar para todos”, já que, justamente, “o primeiro cristão a ir para o Céu foi o ladrão crucificado ao lado de Jesus” (pág. 13) – esta capacidade constitui, decerto, o principal motivo para abraçar estas mais de trezentas páginas. Ou a cultura teológica. Realço, porém, a atenção às circunstâncias em que se processa a vida dos cidadãos comuns, coisa infelizmente não tão comum como seria de desejar nos livros de espiritualidade. Por vezes os autores parecem escrever para quem está no mesmo estado de vida, que geralmente não é o de ter filhos para educar, patrões a quem obedecer, filas de trânsito a suportar.

Timothy Radcliffe, antigo superior dos dominicanos, sabe que se a nossa geração perdeu a esperança no céu, substituiu-a pela fantasia, pela realidade virtual. “Para todos, com excepção dos famosos e ricos, o divertimento consiste em serem espectadores. Olhamos para ecrãs: os ecrãs das televisões, os ecrãs dos cinemas, os ecrãs dos nossos computadores” (pág. 297). Por isso, alerta que o domingo, o “dia sem o qual não podemos viver” (frase do séc. IV), não pode ser o dia do “breve espectáculo em que se toma parte”, mas o da “presença recíproca”.

Reconhece que “as companhias cultivam uma coisa a que chamam LTV, sigla proveniente do inglês e que significa «valor em tempo de vida». É a relação com um cliente, que se prolonga enquanto ele viver”. Esta LTV, num mundo de relações transitórias e frágeis, “é o que se contra mais próximo à estabilidade” (pág. 289), mas para Deus, nós não somos clientes, somos filhos. A vida moderna parece que é “compro, logo existo”. A vida em Igreja é: “Eu sou porque nós somos”.

Estes são meros exemplos da atenção à vida para propor a fé cristã, geralmente pontuados por ideias de quem pode não se identificar com a Igreja mas disse ou fez algo de pertinente (como Vaclav Havel, antigo presidente da República Checa: “A esperança não é a convicção de que alguma coisa acabará bem, mas a certeza de que alguma coisa tem sentido, independentemente do modo como acabar”). Fazem falta livros assim.

J.P.F.